Pentimento é uma palavra de origem italiana que significa o reaparecimento, numa pintura, de um desenho que estava por baixo.
Pentimento é o nome que a escritora Lilian Hellman deu ao seu livro de memórias, do qual não me lembro o enredo, embora o tenha lido sofregamente há 15, 20 anos.
Pentimento é minha coleção de lembranças, minhas camadas de afeto, que se sucedem como geleia que eu derreto lentamente na língua.
Já desejei ser um bicho, que começa cada dia como se fosse o único. Imagino que meu gato tenha memória curta, talvez só se lembre do cheiro do bife, das brigas de rua, das noites de lua que o fazem repetir o frenesi sexual da espécie. Mas acho que isso é instinto, não é memória. Porque memória demais entristece. Então invejo o gato e sua enorme leveza, sua imensa graça, sem passado nem futuro, vivendo a vida como um oceano.
Quanto a mim, nasci com 5 milhões de bytes de memória. Um computador sensorial capaz de lembrar a textura das mãos de uma pessoa, o cheiro da última estação, a frieza da parede onde me encostei, sentindo um calafrio, aos 7, 8 anos e pensando: ''Será que isso é a morte?'' Também sou capaz de lembrar do sol do quintal em que eu me exibia pra Deus, desafiando: ''Sou feliz, sou feliz! E não me venha com o destino.''
Pentimentos são as camadas do meu imenso afeto. As tentativas de afagar indefinidamente um cachecol de lã, meu cabelo castanho, a cabeça dos meus filhos que me perguntam: ''Viu meu tênis, mãe?'' E, para eles, a vida se resolve com dois cadarços.
Pentimento é o mural que meu avô pintou na casa do meu pai. E que depois cobriram com tinta neutra embora seus navios se agitassem de vez em quando e uma parte da proa, uma parte do mastro, teimosamente despontasse a cada 5, 6 anos.
Pentimento me lembra muito bem o sentimento. Desses que deram à minha vida o sentido de ser herdeira de um imenso afeto. Uma dádiva que distribuo a quem passa e leva daqui um raio de sol enquanto me exibo pra Deus gritando: ''Sou feliz, sou feliz!'' E ele não responde nada.
Pentimento é o sentimento de ficar sem respostas, com as perguntas se acumulando como camadas de tinta. Mas não há aqui uma artista arrependida, pintando uma paisagem sobre a outra. Apenas a vida que muda à revelia, como um caleidoscópio. Imagens de vitral que se partem e que se unem na minha memória de milhões de bytes. Eu acho sensual que Proust tenha se dedicado a descrever a asa de uma xícara. Eu tento descrever as asas de um sonho.

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