CÉLIA MUSILLI - Penélope espera Penélope não espera
Ela vigia o dia, ainda que no horizonte as nuvens sejam de um tédio contagiante, caudas de ovelhas, ovelhas sem orelhas, em passinhos lentos de norte a sul, de leste a oeste. Ela perdeu os pontos cardeais, perdeu as contas de quantos olhares dedicou à linha que encosta a Terra ao céu, num destes milagres vespertinos em que, de repente, as ovelhas tingem-se de rosa, lilás e rosa, sem que as criaturas translúcidas gritem mééé.
Penélope procura a fresta do poente bipartido para compreender, afinal, onde o dia acabou e onde começa a noite, misturando nuvens como um grande incenso preso às hastes do horizonte. Ela pensa que suas emoções também são assim, um rolo de nuvens, fumaças que se condensam em dias em que não há presente nem futuro. De vez em quando, as nuvens se dissipam, projetando alegrias, visitas, notícias, fazendo o dia crescer em tamanho, passando a significar algo a mais no calendário. Porque esta contagem não passa de ilusão quando nada acontece.
É preciso que o dia amanheça, é preciso que a noite anoiteça e que o horizonte seja mais que um tédio contagiante, numa paisagem delineada e sem mudanças.
Penélope acostumou-se aos acontecimentos, embriagou-se das epifanias. Não suporta o silêncio do desprendimento do dia que se dobra como um grande manto que envolve a Terra com disciplina e sem sobressaltos.
Ela quer que os dias arrebentem como uma onda gigante, um equilibrista radical sobre a linha mais fina do horizonte. O dia ter que ser de tirar o fôlego, Penélope espera a centésima rotação da Terra.
Ela espera um acontecimento digno. É do tipo que acha que uma data não pode passar em branco sob o risco de naufragar o carpe diem, que é o desejo de transformar a rotina num passeio, aproveitando cada segundo da vida! Matéria-prima das festas nas ilhas, celebração de quem não enxerga o tempo pela lente dos calendários mortos. Antes os caleidoscópios em movimentos incessantes, os acontecimentos em horizontes lisérgicos. Ou então, que o dia nasça de novo e respire.
Penélope não espera
Descobriu que fazia mal ficar de olho no horizonte, esperando os acontecimentos. As coisas não mudam segundo nossos desejos. Isto depende de conjunções astrais, um pouco de sorte, desígnios, quando o vento sopra e a paisagem se move.
Então, Penélope deu um tempo do horizonte e foi fazer café.
(Textos do livro ''Todas as Mulheres em Mim'', Kan Editora e Atrito Art/ 2010)
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