CÉLIA MUSILLI - Para onde vamos?
Ao pesquisar a imortalidade a partir da literatura, deparei-me com um repertório tão vasto que decidi escrever sobre a morte. Personificada como Tanatos na mitologia grega, a morte assombra o homem desde que ele vive na Terra. A função dos heróis gregos, ao morrerem jovens, era sobreviver na memória coletiva graças às narrativas, fazendo assim uma das primeiras pontes entre literatura e imortalidade.
É também através das narrativas que a mítica Sherazade se safa da morte, figurando como a primeira mulher a sobreviver à tirania de um sultão que assassinava suas esposas após a noite de núpcias. Graças à sua imaginação, poder criador e tagarelice, Sherazade encantou o tirano que a poupou para ouvir suas histórias. Pensando nela, sempre que posso, conto histórias aos homens.
Na modernidade, a morte ganha novos contornos, ao nos depararmos com o debate sobre o direito à eutanásia quando um cidadão, em face de uma sobrevida e acometido por doenças, tenta apelar jurídica e eticamente à morte assistida, assunto sempre controverso já que as religiões se ocuparam de encarar como pecado o fato de uma pessoa optar por não viver mais. Da minha parte, em casos extremos - quando viver passa a ser uma condição meramente orgânica, com pessoas em coma, em estado vegetativo ou, sobretudo, conscientes para não desejarem continuar neste mundo - acredito que morrer seja um direito inalienável. A tortura de situações assim, já tão próximas da morte em vida, não me inspiram o zelo de manter uma pessoa acorrentada ao sofrimento por uma ética discutível sob vários pontos de vista. Portanto, caso um dia eu venha a padecer de alguma coisa que me tire o direito à vida plena - destas em que a gente respira, come, dorme, cria, trabalha, se locomove e ama - por favor, me livrem dos empecilhos para ter uma boa morte.
Assunto tão lúgubre, nas páginas de domingo, decerto não tem o sabor da poesia. Mas só vejo humor quando entro em páginas da internet que oferecem serviços fúnebres de luxo, caixões aveludados, cemitérios verticais e horizontais, enfim, toda uma engenharia que funciona como uma espécie de seguro, não de vida, mas de morte. O capitalismo realmente sabe tirar vantagem de tudo e convence pessoas a investirem no fim na tentativa de embarcarem com todo conforto para o outro mundo. A propaganda chega a ser um acinte, como se vendessem passagens de uma companhia aérea garantindo mordomias ao viajante.
Quando meus filhos, com aquele ceticismo típico de adolescentes, começam a me inquirir sobre a morte - para saber se, afinal, vamos para algum lugar ou para lugar nenhum - confesso minha ignorância, já que nunca morri para lhes garantir alguma coisa sobre nosso misterioso destino.
Apenas suponho que se levamos aqui uma vida de altos e baixos, formando famílias e vínculos afetivos de toda sorte, seria natural que houvesse um depois onde tudo continuasse a fazer sentido. No entanto, nada me garante que um black out não nos aguarde ou quem sabe um branco total onde não há mais consciência nem inconsciência, sendo nosso futuro tão promissor quanto o das amebas. Neste caso, só me livrem do absurdo de me oferecerem um enterro de luxo. Caixão de veludo para mim é piada, prefiro dois palmos de terra. Afinal é bíblico o preceito máximo: ''ao pó voltarás''. E antes de me julgarem, sorriam, embora não estejamos sendo filmados.
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