CÉLIA MUSILLI - Para ler Cortázar
"O Jogo da Amarelinha" de Julio Cortázar é instigante. Poucas vezes um autor tomou a ruptura da estrutura narrativa tão ao pé da letra, a ponto de propor dois modos de leitura: um de história linear, que vai do capítulo 1 ao 56, outro que propõe a leitura de capítulos salteados, a partir do 73, que formam uma outra história. Ele ainda sugere que o leitor pode compor sua própria narrativa.
Na leitura linear, destaca-se o triângulo amoroso em que brilha Maga, a personagem feminina, que se aventura por Paris, num enredo que mistura história de imigrantes, com alusões ideológicas - próprias de um autor que se opôs às ditaduras latino-americanas mas, na contrapartida, denunciou a violência da política soviética - auto exilou-se em Paris, onde viveu até a morte, e mergulhou fundo na contracultura. Um amálgama do pensamento de Sartre e Camus, uma fusão de jazz e ritmos caribenhos, os anseios de liberdade que explodiriam em maio de 68 permeiam sua obra.
Mas "O Jogo da Amarelinha" é, sobretudo, uma novela surrealista de um autor argentino na verdade nascido na Bélgica e que completaria 100 anos em 2014 - em que a Maga remete diretamente à Nadja de André Breton. Sob este aspecto, ressalta-se a vivência urbana e cosmopolita dos personagens que formam a rede cultural de diferentes nacionalidades presentes nas relações de amizade do grupo protagonista do livro.
No entanto, é na prosa poética construída por Cortázar que vejo a marca de grande autor, capaz de romper o modo linear de se contar uma história não só estruturalmente o que já seria muito mas nos devaneios que transformam o livro numa viagem imagética. A descrição de uma boca é tomada de um amor pela palavra que justifica a leitura de um mesmo trecho centenas de vezes. Perdi as contas de quanto li a seguinte passagem:
"Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. (...) Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água."
Além da beleza da linguagem, Cortázar rompe com o sentido em alguns trechos, sofisticando a sua criação com palavras que "complicam" a narrativa em favor de um ritmo e de uma sonoridade que é pura poesia: "No mesmo instante em que ele lhe amalava o noema, ela lhe dava com o clêmiso e ambos caíam em hidromurias, em abanios selvagens, em sústalos exasperantes." Imagino o trabalho que um trecho como este deu ao tradutor. Ele pode ser lido com o dicionário ao lado o que não se justifica porque há palavras inventadas por Cortázar - ou da forma mais livre possível, de modo surrealista, com o leitor se atirando no abismo da linguagem só para contemplar o voo. O prazer da leitura é também isso, uma emoção que às vezes toma o lugar da compreensão. Da minha parte, prefiro fazer a leitura assim, mesmo porque este devaneio lírico é a forma de Cortázar narrar o amor da maneira correta, como algo que chega a ser inverossímil.
[email protected]





