CELIA MUSILLI - Para lembrar Leminski
Paulo Leminski vem sendo homenageado por causa dos 20 anos de sua morte, completados em 2009. Esta semana, no Festival Literário de Londrina - Londrix, ele foi lembrado em palestra pelo biógrafo Toninho Vaz, cujo livro O Bandido Que Sabia Latim traz particularidades não só de quem conhece profundamente sua obra, mas também conviveu com ele nos anos 70 e 80.
A história de Leminski, contada no livro, traz tiradas bem-humoradas, como a de um diálogo que ele trava com seu irmão Pedro, quando começa a namorar uma amiga em comum.
- Pedro, é com imenso prazer que lhe comunico que estou namorando uma guria de sua turma.
- Verdade, como é o nome dela?
- Neivair, que vocês chamam de Neiva.
- Sei, mas ela é feia, Paulo.
- Era.
Respostas criativas eram sua marca registrada, mas quando não as obtinha, aproveitava a falha com mesma intensidade:
Não discuto com o destino
O que pintar, eu assino
Nos anos 80, quando Leminski despontou no Brasil como um dos maiores talentos da poesia, dava orgulho conversar com o cara que, na aparência, era um autêntico praticante de artes marciais - o judô era uma de suas paixões - e trazia a força de uma poética que continha, ao mesmo tempo, força e suavidade à moda oriental, mescladas com uma modernidade que fazia dele um criador cosmopolita que poderia ter nascido em Nova York, mas nasceu em Curitiba e, de vez em quando, vinha a Londrina.
Por duas vezes estive com ele. Na primeira, em Londrina, veio com Alice e as filhas Áurea e Estrela para lançar um livro. Em fase de transição, eu tinha um apartamento que acabara de mobiliar na avenida JK e, a pedido de amigos, pude hospedar Leminski que mantinha com Alice uma sintonia admirável.
Foi ela, com muita perspicácia, que notou, antes mesmo de conhecer a dona, que o apartamento onde estavam só podia ser de uma mulher. As pistas eram o abajur, as almofadas e outros detalhes da decoração que coisa de homem não eram. Foi lá que Leminski falou de sua admiração por Londrina, comentando o comportamento e o modo de se vestir das pessoas daqui, que considerava descoladas, sem frescuras, à vontade, modernas.
No lançamento de seu livro, no antigo endereço do Bar Valentino, Leminski dominou a noite com a eloquência de quem tem luz própria. Depois de algumas vodcas, seu talento natural ganhava uma força que, ao meu ver, era como um excesso que, às vezes, ele não tinha como conter. Alto e encorpado, parecia não poder guardar dentro dele mesmo todas as suas descobertas e, não por acaso, deixou livros em versos e prosa, sem falar que com a morte prematura, deve ter levado consigo outras obras, linguagens e línguas com as quais referenciava, além de sua própria geração, a de outros poetas.
Esta semana, por conta de uma pesquisa, deparei-me com um poema delicado de Leminski no qual ele faz alusão a um dos versos mais conhecidos de Rimbaud: Jai perdiu ma vie par delicatesse (Perdi minha vida por delicadeza). E pensei que o verso cabia bem em Leminski, cuja sensibilidade foi ao mesmo tempo o princípio de sua criação e, quem sabe, da sua extinção.
A segunda vez que o encontrei estava em Curitiba, acompanhando um jornalista que foi entrevistá-lo. Na sua casa, com Alice, percebi o mesmo transbordamento eloquente, um excesso que o fazia brilhar como uma pedra rara, não totalmente polida, mas com as arestas próprias dos que naturalmente nascem algumas doses acima da humanidade.
Naquela noite, regada a chá, sua eloquência era a mesma. Mas lá pelas duas da madrugada, quando terminamos a entrevista que poderia durar uma eternidade sem que ninguém sentisse tédio, Leminski nos pediu uma carona. Queria sair conosco quando fôssemos embora porque seus cigarros tinham acabado e talvez, mais que isso, seu sentido noturno o chamasse para alguma inquietude.
Despedimo-nos dele numa esquina, há umas cinco ou seis quadras de sua casa. Quando o vi na rua, andando na madrugada com a intimidade que só os poetas têm com estas horas, não pude deixar de me lembrar de um de seus poemas mais bonitos: Isto de querer/ ser exatamente aquilo / que a gente é/ ainda vai/ nos levar além
E, assim, pela última vez, vi o poeta dobrar a esquina, com a autenticidade de quem já transcendia em vida.





