CELIA MUSILLI - Para embalar a esperança
Queria um polvo vidente igual àquele da Alemanha, para saber se ganho na mega, se o Corinthians será campeão, se terei um dia para o ócio, se vou ao mar no verão. Vocês podem não acreditar, mas dou valor a bobagens, como apostar na loteria pelo ritual da esperança, acreditar nos times mesmo quando batem na trave, dedicar-me à preguiça na rede, sonhar com a praia quando o frio mal começou.
Queria um polvo vidente para perguntar se o Brasil tem jeito, quem vai vencer as eleições, se ficaremos aquecidos como se supõe a economia, embora estejamos todos duros, acreditando no ''país do futuro'', este gigante vulnerável a sortilégios, a escolhas mal feitas, a crises externas, a burrices internas, a discursos políticos, a mentiras maneiras, a apostas onde todos saem perdendo. Vocês podem não acreditar, mas dou valor à seriedade, à sobriedade, à coerência entre as promessas e as atitudes.
Queria um polvo vidente para saber se o goleiro Bruno ficará impune, se 39 anos de prisão são suficientes para dar alguma luz à consciência de Suzane Louise Von Richthofen, se haverá mais ONGs da paz como aquela criada por Massataka Ota, que preferiu o caminho do perdão, depois de ter o filho Yves sequestrado e morto por bandidos. Vocês podem não acreditar, mas preciso saber se, no fim das contas, a generosidade humana suplanta nossa crueldade, porque o mal está no homem, só não sei se na mesma medida em que o bem.
Queria um polvo vidente para perguntar se haverá poesia de sobra no futuro, se haverá fé para além da religião, se o amor estará a salvo e será a salvação, apesar da conveniência reger as uniões em que os dois fingem-se felizes para sempre. Vocês podem não acreditar, mas dou valor, acima de tudo, aos sentimentos e torço para que o lirismo seja o alimento do dia e que os desígnios se coloquem acima de nossos erros, como um regente, distribuindo dádivas e fazendo profecias para que o mundo amanheça melhor depois de tantas ressacas.
Na minha ilusão, torço para que um polvo gourmet nos indique os caminhos, para que eu morra confiante na esperança de que a sorte existe, embora precisemos de tentáculos para abraçar nossas escolhas. E quem sabe um dia sejamos polvos que sabem tudo do futuro, em vez de um povo ou de uma espécie à deriva.
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