Lá vem ela, agora vou deixar que se exiba como jóia no meu corpo. Não se trata de um colar nem de brincos, há anos me despojei destes artifícios. Uso o básico: três anéis de prata, que considero mais elegantes que todo ouro do mundo. Mas lá vem ela, uma tatuagem que demorei anos para me decidir a fazer. Imaginei desenhos, montei cavalos alados, inventei rabiscos e três versos que tinham letras demais para imprimir na pele. E se eu ficasse com cara de gibi? Ou de um soneto inteiro de Camões? Mas não desisti da poesia, por isso uma única palavra, panapaná, vai contemplar meu desejo pelas coisas da natureza, além de ser a expressão do coletivo mais leve do mundo: o das borboletas, porque me despojei dos pesos.
Assim, vou tatuar no pulso ''panapaná'' , e para a palavra não viver sozinha - porque sozinha é triste - tatuo também a imagem de uma borboleta azul, retrato que colei no pensamento quando criança. É que estes insetos me perseguem como uma sina mágica. Em dias de poucos sonhos, elas aparecem, voam sobre mim, fazem a dança fluida de bater levemente as asas a cada segundo, para mostrar que são capazes de conceber maravilhas em pouquíssimo tempo. Flores que se deslocam, fantasias, passam como a correspondência que chega para dizer: ''Antes que o ciclo termine, que os dias acabem como folhas de um livro, imprimo na pele o símbolo da liberdade mais terna do mundo: a das borboletas, mestras da sutileza, da beleza não ostensiva, das dádivas que se movimentam para mostrar que a delicadeza cabe no instante. Borboletas são como os amores: a prova viva de que passamos pela poesia da existência, ainda que não durem''.
O sentido de uma única palavra: panapaná, condensa todo meu desejo de liberdade, ainda que pequena e inigualável. Porque as borboletas são capazes de condensar em tamanho exíguo o sentido pleno daquilo que se solta, que não tem amarras, que vai e vem, ao sabor do vento, como o pólen que mal enxergamos e, no entanto, multiplica a flora, além de deixar tudo mais doce. Borboletas são também a transformação em vida, um signo duplamente vivificado que não espera a morte nem as coisas do além, mas concebe o milagre ali mesmo, a olhos vistos, deixando de ser lagarta enquanto é tempo.
Gosto de bichos alados, além das borboletas, os beija-flores. Gosto dos riscos de quem vive intensamente, saudando as manhãs do planeta. Dizem que uma borboleta dura, em média, de duas semanas a três meses. Mas, na minha pele, vamos subverter o ciclo biológico: ela vai viver muito mais. Talvez algumas décadas, a ponto de se reproduzir no pulso como se me enfeitasse para uma festa. Mas, que festa? Bem, este é um assunto particular. Não se trata de uma comemoração para muitos, é íntima como as escolhas que fazemos. Demorei bastante para decidir que teria a tatuagem de uma borboleta. E nisso nem há grande novidade, porque uma borboleta tatuada é bem comum.
O incomum fica por conta da graça de ligá-la à palavra ''panapaná'', que um dia me revelaram e nunca mais esqueci, guardei como música secreta. É a ligação da palavra, que se parece ao suposto barulho do voo, que me convenceu a fazer a escolha desta espécie de mantra para abrir no meu pulso a liberdade de uma borboleta azul. Entre mim e ela, existe o mistério das escolhas que fazemos para sempre. Como um verso num livro, as palavras reunidas numa oração que passa de pai para filho. Atitudes emblemáticas que transformam a vida numa trajetória cheia de sentidos, uma alquimia lúdica que sabota o tempo e nos traz os ruídos dos riachos da infância, quando já desaguamos em rios.
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