O sonho
  Ontem revi minhas organzas, uma segunda pele de bordados e vestidos da infância. Abri a caixa com cuidado, havia patinhos em ponto-cruz, um gato à espreita, um pardal na goiabeira, um sonho que voou sem que eu quisesse agarrá-lo. Como são livres os sonhos, aqueles aos quais damos asas. Saber soltar um sonho, dar linha a ele como quem brinca com pipa, vê-lo ascendendo nas nuvens até desaparecer, é um ato de desprendimento. Os adultos tentam reter o sonho, segurá-los com as duas mãos. As crianças os soltam numa dimensão onde não chovem as águas presentes nem as estações do futuro.
Depois disso, se um dia o sonho voltar espontaneamente, como melodias e telefones que tocam quando menos se espera, é porque o sonho era nosso, sem registro ou papel passado, mas se apresenta como um hóspede que retorna à nossa porta e faz toc toc toc. Quando perguntamos ‘‘quem é?’’ Ele diz: ‘‘O sonho, aquele que você soltou num voo livre e ficou tão leve que o vento o trouxe de volta’’.
  E aprendemos que o vento é o único veículo que move o desejo de tocar o intangível sem luta.
A flor e o sonho
  Sonhei com uma flor entre as pedras, intensa e colorida, de um vermelho entre o sangue e o vinho, duas expressões da vida. Mas a flor era mais simples que a vida, embora tivesse a mesma teimosia, de vingar sobre a aridez. Era uma destas plantinhas vulgares, que não exigem muitos cuidados como as petúnias, as orquídeas que só florescem uma vez. Era uma flor destas que chamamos beijinho ou maria-sem-vergonha, vermelha como ficam as crianças quando descobrem como nascem.
  A flor enfeitou meu sonho. Era um feixe de pétalas ao sol, um sol que castigava. E tendo a pedra por baixo, a pedra como solo, a pedra como casa e habitat, sobrevivia como um signo da poesia, que embalei no sono e guardei para trazer aqui. A flor mostra a beleza que resiste acima das asperezas dos nossos leitos de pedra.
Sobre o amor
  Todos os seres vivos, das algas aos mamíferos, buscam o amor. Mas as pessoas quando o percebem, às vezes o negam. Quando não podem mais negá-lo, recusam-se a reconhecê-lo e, como um gato, refugiam-se em cima do muro para ficar fora de perigo. Paradoxalmente, tememos o que mais buscamos. O medo, pela sua intensidade, é o oposto perfeito do amor, que está em toda arte e em toda parte. Quando ele se aproxima, a sensação é de que uma onda nos engole. Mas o que seria de nossas vidas sem o seu encanto? Alguém já disse: ‘‘Ama como quem começa a estrada’’. Ou seja, corra o risco.
  Para o gato descer do muro é preciso seduzi-lo com um naco de carne, um peixe fresco, uma carícia que o faça abrir os olhos, talvez dilatando as pupilas. É pelo olhar que se identifica o amor e quando um ser acariciado se entrega, entrega-se primeiramente à sua própria natureza. No fundo, buscar o amor é buscar a si mesmo, um território impossível de se conhecer sem a presença do outro.
Frases marítimas
A concha é uma casa desocupada.
Pegadas na areia são trilhas descartáveis.
O mar é salgado para conservar a vida.
A ilha é a solidão do continente.

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