Quando chega a noite ele fica no quarto dedilhando sua guitarra. Quando já se cansou de todos os games, cards, filmes, livros e de todos os amigos, se recolhe naquela solidão criativa do músico que não precisa de mais nada que não seja seu instrumento. Muitas vezes ouço os acordes de ''Stairway to Heaven'', pensando que a música de Led Zeppelin ainda me leva ao sétimo céu. Afinal, ela fala de ''uma escada para o paraíso'' e de ''uma senhora que acredita que tudo o que brilha é ouro.''
''Starway to Heaven'' é uma das músicas preferidas dele, que gosta de solos exigentes e delicados. Perdi a conta de quantas vezes a ouvi no último ano, talvez mais do que quando estava mergulhada no rock dos anos 70, limpando discos de vinil como quem lustra um tesouro. Porque, como vocês sabem, ''tudo o que brilha é ouro.''
Com a mesma dedicação e insistência, ele também muda o disco e nossa casa se enche com as primeiras notas de ''Sweet Child O'Mine'', de Guns n' Roses. Fico imaginando se, como na música, alguma garota de sorriso angelical povoa seus sonhos, uma paixão fulminante que se equipara ao rock, mas que tem olhos azuis ou cabelos pretos e sempre um sorriso de parar o trânsito.
Não sei onde meu filho Fernão aprendeu estas preciosidades. Só sei que toca guitarra sem parar, da mesma forma que adora desenhar, sem que eu nunca lhe tenha imposto uma folha de papel em branco ou exigido: ''Desenha alguma coisa aí.''
A guitarra também chegou quase por acaso, presente de um tio que um dia a deixou como empréstimo, até compreendermos que o instrumento nunca mais sairia das suas mãos. Aulas de música ele não quer fazer. Teve um professor fantástico num curso inicial e depois saiu atrás dos acordes, como um autodidata dos campos de futebol que corre atrás da bola livremente.
Eu, a mãe do roqueiro, insisti para que se matriculasse num curso regular. Ele me deu aquele sorriso que me leva ao paraíso e foi aprender na internet, com os melhores guitarristas do mundo, sem a intenção de ser um deles. Fernão, ao que parece, não faz projeções no sentido de ser um músico profissional. Apenas toca, como se a guitarra fosse a extensão de sua emoção quase infantil, entrando no mundo adulto ao som do rock.
Aos 13 anos, nunca ouviu meus discos de vinil, que continuam guardados à espera de uma vitrola que não existe lá em casa. Faço planos de ter uma daquelas antigas, de som cristalino a encher a sala, para que o rock inunde de vez a vida.
Por ora, me contento em ouvir um roqueiro solitário, em cuja cabeça deve ressoar uma bateria, um baixo e, talvez, outra guitarra. Já sugeri que formasse uma banda e, brincando, disse que, se quisesse, eu seria como a mãe de um dos caras do Metallica que estimulou o filho, chegando a ser sua empresária. Para aproximar o sonho da realidade, ofereci sanduíches e refrigerantes na hora dos ensaios, além de um espaço cativo na garagem. Fernão continua a me responder com um sorriso maroto. Nem sim nem não, porque nada parece ter importância, além dos acordes que repete todas as noites como uma escada que o leva a um paraíso barulhento. Ele toca como quem respira, naturalmente, exercitando a paixão pelo rock antes de ser sacudido por outras paixões que talvez nem caibam nos acordes, porque a vida, meu filho - isso tenho que dizer - também transborda sem cursos regulares.

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