CÉLIA MUSILLI - Outras palavras
Agora é o silêncio. Depois de garimpar palavras, revirar o texto, tecer o verbo, desfolhar os significados como girassóis profanos que viram a cabeça dos homens e as rosas puritanas que se dão às esposas loucas por naturezas mortas.
Agora é o silêncio. Depois de acertar o alvo, ferir com a seta, lamber a ferida, olhar a cicatriz como quem vê o porto e o navio partindo no mar onde o azul desmaiou, grande como o amor na tarde repentina.
Há sentimentos assim, intensos como a visão de Gauguin, as mulheres do Taiti, a eloquência de Rimbaud, a emoção de Pessoa percorrendo o Tejo e as águas do desejo derramadas na terra onde só ficam as lembranças quietas. Aqui e ali eclodem as sementes, mas nem tudo cresce. Seleção botânica e natural ou a escolha injusta dos que pisam os botões no campo das ternuras despetaladas.
Agora é o silêncio. A lei que vale ouro é sem palavras e a prata dos meus versos é o que ninguém decifra. Criptografia sem chave, hieróglifo empoeirado, inscrição rupestre onde os amantes cavam a arqueologia do afeto, tesouro de Ísis, a que foi além do Nilo e do Saara. Geografia de emoções, histórias, o silêncio entre as lendas da mulher esfinge. O amor, meu rei, sempre me devora.
Exercícios
Há uma fábula que ensina a caminhar entre as pedras, pisando com suavidade.
Há uma fábula que ensina a atravessar territórios íngremes, exercitando o equilíbrio.
Há uma fábula que ensina a emergir das águas profundas, flutuando como uma alga.
A leveza é o contraponto dos choques, a compreensão o oposto da resistência que embrutece. As fábulas existem para trazer solução ao que parece insolúvel. E quase sempre as respostas não surgem de intrincados pensamentos que brotam das mentes contritas. Nascem no coração, de onde emergem a dor e o amor, sentimentos que moldam escolhas importantes. Siga seu coração. Sentir é superior a pensar. Sentir é uma antena que capta o essencial sem esforço. É nossa ligação direta com a vida, exercício de fina sintonia.
Como caem as pétalas
Trato sempre com delicadeza as pessoas a quem amei. Ainda que tudo aquilo que amei um dia perca a conexão com seu significado. Mesmo assim, sou do tipo que respeita até o fim o que amei e não me valho de subterfúgios para dizer o que precisa ser dito. Não deixo fotos na parede, não deixo pistas de abandono. Peço que desmontem as cenas que causam ciúme e dor. Dou eu mesma a instrução que indica a mudança de rumo. E sinalizo a estrada, ainda que triste como o ocaso, solitária como a árvore-mãe, imprevisível como um caminho que se perde e me despeço com o agradecimento dos simples e a graça dos puros.
Quando vou embora, sempre olho nos olhos das pessoas a quem amei. E, da mesma forma que me abri em pétalas, recolho-as com gratidão por um dia ter desabrochado. As pétalas deixo nos livros, onde os poemas guardam o segredo das imaterialidades. Alguém sabe a quem se destina o canto, a pausa, o movimento de delicadíssima despedida como pluma de afeto que não se sustenta no ar?
Meus poemas são todos feitos de sentimentos que merecem a celebração das vitórias e a unção das derrotas. Então, deve haver um perfume, um âmbar que sele para sempre o desprendimento das histórias de amor. Por isso, acaricio até o fim as pessoas que um dia amei. Sua passagem é como a fumaça do incenso, levando minha dor inconfidente e os fios desconectados de uma indizível saudade. Não estão mais aqui as pessoas a quem amei. Mas elas vivem em mim, nos espaços das dádivas e das ternuras.
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