Terminada a temporada de vestibulares, em que milhões de estudantes prestaram exames em universidades, temos a prova de que o consenso geral ainda é: "sem curso superior não há futuro". Mas um olhar diagonal sobre a questão do ensino e sua relação com aquilo que interessa em última instância - a realização profissional - exige hoje outros parâmetros.
Sou do tempo em que sonhávamos com uma faculdade como garantia de emprego com um final feliz. De fato, um curso superior abre portas, mas não determina estabilidade nem futuro. Conheço engenheiros que se deram bem como donos de restaurante e economistas que conquistaram espaço como cabeleireiros. Já desconfiada que o que era válido para meus pais, que sempre me recomendaram fazer faculdade, não serve mais como garantia de realização. Vi esta semana, através da experiência de um dos meus filhos, o nascimento de uma nova concepção de carreira que não passa necessariamente pelo vestibular.
Um dos meus filhos sempre foi exímio desenhista, a partir dos 3 ou 4 anos começou a mostrar um talento que nos fazia imaginá-lo nas profissões de praxe onde pudesse aproveitar a vocação que se esboçava sem esforço, achávamos que tínhamos "quase pronto" um arquiteto, um designer de móveis ou um artista plástico. Com displicência, ele sempre espalhou desenhos pela casa e coube a mim recolher seus rabiscos que, vez ou outra, mostrava aos amigos extasiada com um talento demonstrado com tanta facilidade.
Nos anos de colegial, a tragédia das ciências exatas, para as quais meu filho nunca mostrou aptidão, o fez sofrer com fórmulas e equações que desconfio até hoje não compreendeu muito bem, assim como eu. Terminada esta etapa e sem conseguir fazer no Enem pontuação necessária nem para um curso de hidrologia, segundo seu irmão – sem que isso signifique menosprezo ao curso, mas simplesmente que poucos querem ser hidrólogos – eu não tinha a menor ideia de como Fernão poderia escolher uma profissão, tendo em vista as barreiras encontradas nos vestibulares onde cérebros formatados em cursinhos são os únicos aptos para faculdades bem vistas: medicina, engenharia, direito. A certa altura, ele chegou a cogitar biologia, mas eu sabia que se tratava de um truque para que parassem de enchê-lo de perguntas que, no fundo, significam: E agora, o que vai ser se já cresceu?
Quando ninguém mais vislumbrava saída, ele buscou a porta lateral e fez teste para um curso livre de criação de games numa excelente escola paulistana que tem entre os parceiros estúdios de cinema. Passou no teste com direito a bolsa de estudos e quando todo mundo imaginava que seria o último lá em casa a se definir profissionalmente, revelou-se o primeiro. Eu, que sempre o critiquei por passar horas no computador distraído com games, agora sou obrigada a engolir a mania como "início de carreira". Diante disso, se vocês não aguentam mais ver seus filhos no computador só posso aconselhar o seguinte: profissionalize-os. É muito melhor do que tentar transformá-los em engenheiros ou médicos sem vocação.
Agora sou eu quem tem aulas com ele, interessada em games que trazem narrativas que eu só via em livros. Aos poucos, vou adentrando um universo de personagens que habitam paisagens míticas como a de Shadow of the Colossus, cujo herói Wander luta contra gigantes. Para minha surpresa, ainda tenho que ouvir a consideração do meu filho especialista: "Este jogo é bonito, mas é antigo, mãe. Hoje o grafismo já está bem mais evoluído".
Da minha parte, já basta a novidade de conhecer estes "colossos", enquanto ele desfia um conhecimento construído em horas que eu julgava perdidas no computador. Na verdade, não há passos perdidos, às vezes a gente só não sabe para que caminhos levam.

[email protected]

mockup