Quem diria. Num país acostumado a rezar pelas chuvas, ando pensando na oração inversa: pedir para que a chuva não caia, não com a intensidade dos últimos verões. Nesta quinta-feira, já acordamos com um alerta sobre as chuvas no Rio de Janeiro, primeiro sinal de risco no ano que começa.
De uns anos para cá, os verões brasileiros perderam a aura da mágica combinação de sol e mar. Ela ainda figura nos anúncios de cerveja, mas verões no litoral têm sido mais um pesadelo que um sonho. Nas áreas que se configuram com mar e montanhas, o receio é a precipitação da terra morro abaixo, geralmente consequência do desmatamento. Os morros estão cada vez mais pelados, descobertos, ou vestindo um biquíni sumário de matas. O verde dá lugar à cor da terra nua, desmatamento em massa, e ainda querem morar à beira dos precipícios. Falta de consciência da população, invasão de áreas que não servem à habitação, descaso total das autoridades que se arrastam na eterna lengalenga para solucionar o problema. Passadas as eleições, ninguém se lembra desta questão seríssima. O Brasil agoniza todos os anos com seu regime de chuvas.
Num país em que estados querem legislação ambiental própria, é um crime pedir, por exemplo, que as matas ciliares se estendam por apenas cinco metros. O previsto no Código Florestal varia de 30 até 500 metros em cada margem, dependendo da largura do rio. Claro que a lei é frequentemente desrespeitada, vemos por aí cerca de 20 metros de mata ciliar em rios de porte médio, se muito. Imaginem deixar apenas cinco metros de mata, este é o espaço de nossas casas até a rua, distância exígua, ridícula para ser determinada como área de proteção dos rios que estão cada vez mais assoreados. A mata é a esponja que absorve a água em velocidade que desliza até os rios carregando a terra em áreas erodidas e causando o assoreamento.
Na verdade, nada há de novo sobre estas questões, crianças de 6 anos conhecem de cor as regras básicas de preservação ambiental, o que falta é responsabilidade, enquanto sobra ambição nas mentes "produtivas" que só pensam em dinheiro e aviltam o país e o planeta. É de cortar o coração o que fazem com áreas que deveriam ser preservadas.
Além de bater na mesma tecla todos os anos, neste período em que os desastres ambientais se tornam mais evidentes, resta fazer uma reza do avesso não para pedir chuvas, mas sua contenção, dizendo: "Pai, tem compaixão de todos os que sofrem duramente pela chuva que nos ameaça nestes dias e também pelos que destroem as matas, a 'pele vegetal' dos morros, contribuindo para matar os rios e ignorando que da sua vida também dependemos. Que os santos e deuses da chuva recebam nosso e-mail antes que seja tarde mais uma vez. Amém!"

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