Depois da tragédia ambiental em Mariana, dos atentados terroristas em Paris e na Nigéria – este bem menos comentado na mídia – sobra a ressaca nas semanas seguintes, quando dá uma tristeza enorme de ver o mundo contemporâneo mergulhado em duas pragas que se equiparam àquelas da Bíblia. Estou falando do fundamentalismo religioso e da destruição ambiental que não deixam de ser a cara escarrada da crise do capitalismo. O fundamentalismo retoma a visão conservadora do mundo, em vez de libertá-lo, é uma ideologia nefasta quando transforma a ideia de Deus em disputa, espécie de fetiche pudico que cega a humanidade, assim como o ambicioso faz o mesmo papel por dinheiro. Se analisarmos sob essa ótica, ambos são produtos do mesmo vício, o de não olhar a vida de forma ampla, inteira, generosa, tratando as diferenças de crença e de desejo com respeito humano.
A vontade é de sair às ruas em manifestações pacíficas que parecem cada vez mais distantes do ideal do homem. A França tratou de bombardear a Síria após o atentado em Paris, isso não vai resolver a crise, vai acirrá-la. Minha impressão é que isso é o que o Estado Islâmico mais quer, ficar no centro da mídia, como autor e vítima da violência, essa é sua idolatria.
O atentado na Nigéria, na sequência - que matou mais de 40 pessoas de forma bruta, inclusive usando meninas de 7 e 11 anos como "mulheres-bomba" - não teve a mesma repercussão do atentado em Paris. Não vi plantões noticiosos na TV, não vi comoção popular no Ocidente, nenhuma flor, nenhuma lágrima, nenhum avatar com a bandeira da Nigéria nas redes sociais. O que mostra que o mundo ainda elege mortes como sendo de primeira e de segunda classe.
Por outro lado, no meu ponto de vista, em relação à tragédia ambiental de Mariana o que menos a mídia mostrou foi o aspecto humano. Falam em números e cifras, falam na concentração da lama, mostram o distrito de Bento Rodrigues destruído em vista aérea, mas foi num vídeo alternativo de Caique de Castro, de Governador Valadares, que pude ver e ouvir a população de forma mais expressiva, ganhando a voz obliterada em outros meios. Essa voz às vezes quase desaparece em detrimento dos aspectos jurídicos, econômicos e políticos da maior importância – afinal são eles a consequência e a causa da desgraça - mas nada disso tem valor se não for para revelar o humano.
O sofrimento das pessoas sem água - no trajeto da lama, que foi de Minas Gerais até a foz do rio Doce no Espírito Santo – é maior que qualquer multa aplicada às empresas causadoras do desastre ambiental. Além da carência de água potável, era preciso olhar de perto a tristeza imensa de quem perdeu um rio inteiro, parte de sua cultura, seus familiares, sua história. A mídia vem perdendo o vínculo humanitário com as notícias ou talvez esteja escondendo aquilo que pode causar uma comoção maior: as vítimas da tragédia de Mariana ou da Nigéria. Mas é na fala simples, na economia minúscula da pesca que dá renda à população ribeirinha do rio Doce ou do Xingu, que estão aqueles que mais amam e protegem a natureza aviltada. Essa gente precisa ter voz, precisa ser considerada pelas câmeras em zoom.
Não tenho dúvidas que a marcha do capitalismo hoje, em sua forma mais selvagem, é a desse trem descarrilhado da destruição ambiental que corta o Brasil de ponta a ponta. É preciso falar disso e, mais do que se valer de números, precisamos mostrar a tragédia pelo coração. Mais do que a política, mais do que a religião, esse é o único órgão não burocrático que pode, enfim, salvar o mundo.

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