Se fosse para continuar meu Deus...
eu tomaria cada gota de felicidade como o mel que pacientemente a abelha cria, voando do pólen à colmeia, na disciplina dos dias que chegam com o cheiro da manhã recolhida em orvalho recôndito, onde só os insetos pisam com patinhas de veludo. Com esta delicadeza, mandaria dizer a cada ser da Terra que é preciso pisar leve para que não se acorde em vão os passarinhos que guardam sob as asas os filhotes e a esperança de que há vida, meu amor, há vida, ainda que o Vale da Morte circunde a montanha em cujo cume as nuvens anunciam que há um Criador, depois do céu, com sua face misteriosa que ninguém nunca viu, mas respeita sem conhecer...

Se fosse para continuar meu Deus...
eu tomaria cada gota de felicidade levando-a pela mão, como a mãe que atravessa o filho, cuidando para que não lhe fuja a única verdade possível do amor sobre a Terra, onde mãe e filho celebram a vida enquanto é cedo e as tempestades ainda não se anunciam como um fim em si mesmas, descarregando nuvens grossas em gotículas frias que recebem o sopro do Pai secando o ferimento que sangrou sem querer ao pousar sobre espinhos. Porque as crianças não sabem, meu Deus, não sabem onde espreita o perigo e, na sua inocência, a sombra da morte é só um sonho ruim do qual acordam gritando para terem a certeza de que sua voz é mais forte do que os desígnios...

Se fosse para continuar meu Deus...
eu tomaria cada gota de felicidade oferecida em vida a estes dias santificados em que estamos todos juntos, sob a proteção do triunfo onde não chega a infelicidade, nem a dor, nem a angústia. Aqui todos nos olhamos entre sorrisos, abençoando cada segundo em que a comunhão de nossas almas e de nossos corpos paira sobre a Terra, sem pensar que a separação um dia nos recolherá como uma loba repentina que não ama, não pergunta, não perdoa e nos transforma em ovelhas que vão para o sacrifício, cujo motivo não compreendemos.

Afinal Senhor, nascemos, crescemos e nos multiplicamos e, quando enfim nos separamos, esta paisagem interior cria uma névoa de isolamento e nossos espíritos se apartam mergulhando no vazio. Ali, cada gota de felicidade não pode ser retomada porque cada um de nós já teve sua dose de embriaguez no cálice da vida, que não pode ser preenchido mais de uma vez por alegrias porque dele também escorrem lágrimas, como o cristal do pensamento que se redime das culpas e dos medos.

E assim, transbordamos para a morte como almas líquidas e embarcações de saudades perenes e consoladas. Quem nos atravessa é o barqueiro, do qual não me atrevo a dizer nem o nome.

Nota: não gosto de fazer balanços tristes, mas este ano é inevitável, 2013 foi de muitas perdas, grande amigos se foram. Dona Vilma Santos de Oliveira (a Yá Mukumby), sua mãe Dona Alial e a neta Olívia; os amigos e jornalistas Alexandre Horner e Teresa Urban, além de um psicanalista do Rio que também me faz muita falta: Dr. Rubens Molina. A eles dedico esta crônica. Foi o único texto sobre a morte que escrevi e o considero, de certa forma, definitivo. Não pretendo fazer outro. Aos que se foram e aos que ficaram, a paz.

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