CELIA MUSILLI - O que não se diz
É preciso dizer alguma coisa porque um ano termina e outro ano começa. É preciso dizer alguma coisa, quase sempre me pareceu preciso. Mas desta vez não vou dizer muito, prefiro me entregar aos acontecimentos. Quero ficar como um gato ao sol, aquele que nos momentos de paz não se manifesta, a não ser para receber raios de luz enquanto bate as orelhas, num movimento sutil, quase imperceptível, de quem se mexe ao acaso, picado por uma abelha, alvo de uma folha que caiu.
Gatos não fazem planos, não desejam viagens, não querem a passagem de ida, nem a passagem de volta. Gatos não têm carências, ingerências ou, se as têm, as guardam no íntimo, naquele espaço secreto onde talvez anseiem por sardinhas, almofadas, as unhas afiadas no sofá.
Como um gato, adormeço minha vontade para saber, afinal, o que sonho. Estou falando dos desejos intangíveis, aqueles que não se expressam. Por isso dormem caramujos em suas conchas, ostras sonhando pérolas, cinzas sonhando diamantes, deixando que os acontecimentos os transformem. Sei que podemos tecer o destino. Como a aranha, a gente costura e desmancha, faz e desfaz. Sem os atos, a vida passa com a morosidade da brisa, o canto sibilante das florestas que mal se mexem.
Mas hoje quero o destino manifesto, sem as ações humanas. Com este desejo fico quietinha, como um gato ao sol, enquanto um ano começa e outro ano termina. 2010 é o ano do Tigre, talvez por isso, esta minha vontade, que é quase a falta de vontade de uma ilusão felina. Quero a sinfonia do acaso, não sei bem se por cansaço ou preguiça que me colocam em contato direto com os batimentos cardíacos.
Aqui neste sol de janeiro, sem planos nem documentos, projeto as palavras em meu íntimo, onde as ressonâncias se encontram sem que se diga um ''a''. Sentimentos são difíceis de expressar, embora a gente tente, tente. Centenas de pessoas tentem e todo dia se arranhe, afinal, o que se quis dizer.
Não preciso de muitas palavras só porque o ano começa. Solto o passado e nem vislumbro futuro. Sou como um gato ao sol, aquele bicho feito de manhas que recolhe o calor nas entranhas e sabe que isto é vida!
Eu tenho um amor sem destino, eu tenho um coração sutil. Ouço, quase adormecida, as vozes e os silêncios interiores. Uma formiga carrega a folha que rodopiou e caiu. Bailarina do acaso em seu último ato. Assim, abro os calendários numa passagem zen.
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