No Natal foram abertas as caixas de presentes, a vontade de ajudar o próximo, o guarda-roupa do Papai Noel, o portão das renas, o sorriso das crianças, o amor dos simples, a esperança dos fortes, as rodas de ciranda, as embalagens das bonecas, o semáforo das avenidas, as lojas de bugigangas, os carros novinhos em folha, o chuveiro para cantorias, o comércio livre em Cuba, os bombons e os sacos de balas, as rotas da migração dos pássaros, as portas do imaginário, os espaços da fantasia, os quartos de brinquedos, as sombrinhas coloridas, as gavetas de lembranças, as bilheterias dos parques, os salões dos navios, as cabines dos pilotos, os caminhos da infância.
Permanecerão abertos o desejo de um ano maravilhoso, os acampamentos de férias, a fé dos antigos, o pátio para recreios, as flores que foram botão, os vestidos decotados, os olhos para verem os decotes, os vidros de perfume, as mãos estendidas, as sessões de cinema, o teatro de variedades, as garrafas de champanhe, os vinhos tintos, os livros de poesia, o caderninho de receitas, as maternidades, o guarda-chuva, o guarda-sol, o coco para beber água, a ostra para ver a pérola, as dunas, os mirantes das montanhas, as porteiras das fazendas, as janelas ensolaradas, os hotéis baratos, as cachoeiras para banho, os potes de geleia, os sacos de pão, as tendas dos ciganos, os baralhos de tarô, os corações apaixonados.
Nesta época devem permanecer fechados os espaços de turbulência, os congressos inúteis, as câmaras que não legislam, as urnas violadas, a passagem dos insensíveis, os bancos que cobram juros, as empresas que exploram, as cartas precatórias, as firmas de cobranças, as fábricas que poluem, as alfândegas fajutas, os portos de contrabando, os pontos de exploração de mulheres, os centros de trabalho escravo, o comércio de armas de fogo, as igrejas enganosas, a indústria da guerra, os ímpetos de ignorância, os atritos desnecessários, as revoltas que não levam a nada.
Devem ser bem trancados os sentimentos baixos, as emoções vazias, o impulso de ódio, a raiva do vizinho, a maledicência nos salões de beleza, a fofoca no bairro, o diz-que-me-diz, o rancor entre amigos, as torneiras que pingam, os ruídos ensurdecedores, os gritos, a vontade de matar os rios, a derrubada das matas, os acidentes de percurso, a falta de boa vontade, as discussões acaloradas, as desconfianças, os desejos de vingança, as concorrências desleais, as dúvidas, as trapaças e as intrigas.
Separe bem seus desejos e os classifique por ordem satisfação. Abra a cabeça para bons pensamentos, feche o coração para angústias. Agora, a chave é sua.

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