Estou esperando o poeta Paulo Mendes Campos. Ele não virá em carne e osso porque se foi há muito tempo. Virá em forma de livro, chamado "Domingo azul do mar", que encontrei num sebo virtual, autografado, e cismei que seria meu. Não sou de mistificar relações humanas, nada mais humano que a relação de um poeta e seu leitor, mas saber que além de escrever, Paulo Mendes Campos autografou aquele livro, me fez querê-lo mais. A obra deve chegar puída pelo tempo, desgastada por tantas mãos e estantes. Ou será que teve um único dono que se foi como o poeta e o livro ficou ali, entregue a um sebo, à espera de outro leitor que o desejasse tanto quanto se deseja um domingo?
O correio anda atrasado, não sabe que a greve paralisa também a poesia, além dos documentos, contas a pagar, encomendas diversas. Se o correio gostasse de poesia, a greve afetaria só as contas, não haveria mesmo expectativa para que chegassem e tudo ficaria perfeito. Mas reter a poesia, num mundo grosseiro, é colaborar com a falta de esperança. Torço para que os funcionários do correio tenham motivos para ter esperanças e quem gosta de poesia também.
Do Paulo Mendes Campos sei pouco. Apenas que nasceu em 28 de fevereiro de 1922, ano modernista, e escapou por pouco do dia 29, porque o ano era bissexto, se nascesse um dia depois ficaria como as pessoas de aniversário móvel, o que nunca sei se é desvantagem. Foi amigo de outros grandes escritores mineiros, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino e Otto Lara Rezende, como se sabe. Entre outras coisas, escreveu Testamento do Brasil e Domingo Azul do Mar (poesia) e muitas crônicas, incluindo O Amor Acaba, que também deu título a um livro. Seu maior mérito foi atacar a chatice, a mesmice, o lugar comum, como denuncia em "Anatomia do Tédio": "Nessa cultura estercada é que a torpeza espiritual do homem produz a flor plástica do tédio (...)" Uma crítica que estende ao contemporâneo quando explica em outra crônica: "Sua psicologia: todo homem tem seu preço. Sua economia: poupar os tostões. Sociologia: o povo não sabe o que quer. Filosofia: o seguro morreu de velho. O homem perfeitamente infeliz ama os seus de um amor incômodo ou francamente insuportável."
Acho amor insuportável um conceito impecável. Se olharmos para trás veremos o quanto de insuportável vivemos em cada amor que não pode ser exercício de resistência, poesia sim. Por isso, enquanto o correio não chega, vou sonhando com Paulo Mendes Campos que foi o grande amor de Clarice Lispector e devia compreender em dobro os sentimentos sutis e os estados de espírito voláteis. Enquanto ele não chega, fico com o que encontrei aleatoriamente de sua poesia. Uma se casa perfeitamente com o domingo, este em que acordamos alegres, com tendência ao tédio pelo meio-dia, sem contar a incrível solidão depois de caminhar nos parques, antes de se deparar com uma semana desconhecida. Vamos desfrutar o domingo, ainda que longe, bem longe do mar. Sempre há outros tons de azul, mesmo que a esperança seja um verdinho sempre esmaecido. Paulo Mendes Campos faleceu em 1991, mas vocês vão ver, ele ainda virá porque me disse: "até a próxima semana."

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