Algumas vezes escrevi sobre Manoel de Barros aqui mesmo. Ele tomou conhecimento de uma dessas crônicas através do jornalista Luiz Taques, amigo de Manoel a quem sempre chamou com todas as letras POETA.
A crônica de hoje não chegará a Manoel de Barros que morreu na última quinta-feira, aos 97 anos. Morrer não é bem a palavra, "desencantou-se", apesar de lindo, é pouco original para ele. Desinventou-se talvez fosse um verbo, mas Manoel também não se desinventa, fica colado para sempre à poesia das imagens, como uma árvore na paisagem, uma borboleta com desejo humano, um homem com desejo de ser borboleta que melhorava minhas manhãs quando acordava precisando de uma dose extra de lirismo. Porque Manoel é grande, Manoel é imenso, Manoel é presente e não morre, Manoel é futuro até para o século 25.
Sua poesia é diferente, tinha o dom de pegar o ritmo nadando como um peixe em semânticas surpreendentes que ele criava como quem brinca. A ele muita gente deve a ideia da poesia enquanto "despalavra", do verbo como "delírio".
Manoel de Barros nasceu em Cuiabá, mas não gostava de ser chamado "poeta do Pantanal", dizia que poesia não é paisagem, é palavra que lavrava no seu "escritório de inutilidades" todos os dias, quando se recolhia para seu ofício de inventor da língua. Acho que tinha dificuldades para andar pelo mundo sobre os pés, então usava as asas que a escrita lhe dava para ir longe.
Viveu boa parte do tempo recluso, mas sua poesia passou a ser conhecida nos anos 1980, através das referências de Antonio Houaiss e Millôr Fernandes que começaram a citá-la nos jornais. Ganhou dois prêmios Jabutis, por "O guardador de águas", em 1989, e "O fazedor do amanhecer", em 2002. Foi publicado na França, Espanha, Portugal e Estados Unidos. Mas gostava mesmo de seu primeiro livro, "Poemas concebidos sem pecado", de 1937. Suponho que fosse para ele uma espécie de obra descontaminada de tudo que sucederia, incluindo a fama.
Em 1947 casou-se com a Dona Stella no Rio, apenas três meses depois de iniciar o namoro. Acho que decisão tão rápida deveu-se ao reconhecimento imediato da mulher com identidade de estrela. Encaixe perfeito para quem vivia acima do chão e parecia ver mundos do alto, aproximando as coisas delicadas do olhar do leitor como um poeta especialista em zoom, um surrealista que captava imagens e sentidos do outro mundo.
Há tanto a dizer sobre Manoel de Barros que um único poema seu daria um tratado de estética, mas ele simplificava a beleza e ampliava o amor ao falar dos filhos. A perda de dois deles foi certamente a causa das maiores tristezas do poeta que emudeceu de vez em 2013, segundo contam, com o falecimento do primogênito Pedro. Antes já havia perdido João, num acidente aéreo em 2007.
Em 2013, depois de perder o segundo filho, ainda escreveu o poema "A Turma", dedicado ao coletivo, para depois recolher-se num isolamento que durou até seus últimos dias. Devem vir por aí muitas coisas sobre Manoel de Barros, incluindo livros sobre as cartas que trocou com personalidades da literatura. Para mim, no entanto, o poeta tinha uma coisa que escapava a toda glória e o mantém único: uma simplicidade refinada como folhas de árvores nativas, uma floresta de riscos que guarda no fundo o aroma inapreensível das palavras que nunca alguém disse antes. Vai Manoel e fica entre nós ensinando vocabulários que nos deram as medidas da desinvenção, a abstração do incomum.

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