O mundo não acabou. Pelo menos espero que não, porque escrevo às vésperas do provável Apocalipse com a esperança de que estejamos todos juntos neste fim de ano e a Terra continue a girar por aí, com sol ou chuva.
Mas o anúncio do fim do mundo me fez refletir sobre muitas coisas, destas sobre as quais a gente reflete quando percebe que tudo está por um fio. Por exemplo: o que vocês fariam no último dia de suas vidas? Ah! meus desejos nem cabem em 24 horas.
Queria um espaço de prazer maior do que tenho usufruído, transformando tudo num carnaval particular em que tiraria o atraso. Nas últimas horas, teria ao meu lado os bichos de estimação, reveria, como num filme, as alegrias dos filhos, todos os amores, as graças, as frases, os poemas que não escrevi, as cenas que ficaram no escuro, como naqueles sonhos que a gente tem às 4 da manhã.
4 horas é o momento em que os sonhos acordam. Tenho para mim que nesta hora se abre o portal completo, a abóbada das cidades imaginadas por Borges, a porta que subverte toda realidade, aquela que é surrealista por inverter a lógica dos acontecimentos, como se abríssemos uma tampa e escorregássemos para outra dimensão ouvindo rock. É aí que se abre o sonho, na acepção da palavra, e eu queria estar lá quando o mundo enfim acabasse: na antessala do desconhecido, deslumbrada com o que há para ver porque quero um fim do mundo fantástico. Mais que isso, um Apocalipse alegre. Alguém já pensou nisto?
Para horror da maioria, devo dizer que não tenho medo da morte e que nunca seria uma convertida de última hora. Continuaria acreditando que a finalidade da vida é a vida, a alegria e alguma melancolia - como agora, quando os anjos tocam blues - para que sejam criadas coisas que os sentidos só alcançam em silêncio, numa espécie de intimidade, de volta ao reino intrauterino, à solidão primordial onde nos misturamos à água do mar. Adoraria se no fim do mundo, numa cena dantesca, visse passar uns cardumes ou aglomerados de estrelas.
Pensando nisso, escrevo algumas linhas para o Apocalipse, ainda que estejamos aqui para mais um domingo na Terra. É sempre bom escrever algumas linhas sobre o fim do mundo porque depois não haverá mais verbo, meus caros.
Mas como tudo continuou como antes, temos ao menos que agradecer aos maias pela oportunidade de fazer ficção, devanear em torno da existência. O que é bem melhor que acreditar que tudo será igual neste domingo, apesar de eu adorar os domingos – assim mesmo como são - por serem os dias consagrados ao ócio, quando as pessoas vibram pela preguiça da existência.
E vocês, o que vão fariam antes do fim do mundo? Pensem, ainda que seja apenas para fantasiar e façam cada dia valer por tudo de prazer que merecemos nesta hora mágica, quando soam as trombetas, música da existência agora tocada por anjos roqueiros, fazendo-nos ficar de bem com o corpo e os pensamentos, nossos vínculos máximos com a vida. Ah, o corpo, prova incontestável de que estamos vivos enquanto ele se move, deve ser esta a alegria apocalíptica na antessala do Infinito.

Feliz Natal a todos!


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