CÉLIA MUSILLI - O motor é o senhor, nada nos salvará
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sábado, 23 de fevereiro de 2013
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Ando por muitas cidades. Um compromisso aqui, uma expectativa ali me leva por mundos. Mundos pequenos, é verdade. Algumas cidades não têm mais que cem mil habitantes. Mas cem mil vivem hoje como se fossem um milhão. Que ruas estreitas têm as cidades pequenas. Elas se transformam numa Bombaim quando cada família - cada uma com dois ou três carros - estaciona Fiats e Hondas, invadindo calçadas. Fazem trajetos, de apenas dois quilômetros, motorizadas, esquecendo as pernas.
Pernas hoje ficam para centopeias e aranhas, o homem tem rodas. Duas ou quatro rodas, nunca mais um bom par de sapatos para percursos curtos ou longos, passeios ou compras. Assim, vi pessoas rodando em Porto Feliz, Boituva e Tatuí, nomes bucólicos para cidades do interior de SP que passaram por uma estranha metamorfose, como um destes corpos que recebem enxertos de silicone. Elas ainda têm suas praças e as igrejas no alto da rua, onde se adivinha um passado de procissão. Mas a procissão agora é de carros, velas substituídas por faróis, ave-marias por buzinaços e potentes caixas de som. Não sei para onde vai tanta gente motorizada, sob o sol escaldante, em veículos quentes como o piche mole do asfalto.
Vi os motoristas cumprindo um sacrifício que exala CO2, espécie de enxofre que deixa as cidades com a atmosfera do inferno. Neste verão, a temperatura sobe a 38, 40 graus, um cheiro de gasolina e álcool deixa o ar empesteado, a gente sente um porre danado da civilização.
Numa única quadra contei 32 veículos, entre os que rodam e estacionam. Estranho carrossel urbano com cavalinhos de lata e fibra de vidro, motores roncando, impaciência ao volante para dobrar ou frear a cada esquina. Lá estão os mortos de tédio em sua procissão. O motor é o senhor, nada nos salvará! A gente cheira a futuro, neste estranho cemitério de automóveis que não é o de Fernando Arrabal, que escreveu a peça em que os pobres moram em automóveis abandonados como se fossem palácios. Agora, os "palácios" rodam mesmo, levando famílias em seus tronos de couro sintético, direção hidráulica, kit antifurto, buzina importada, GPS. Um palacete de inutilidades. Para que serve um GPS em cidade de cem mil habitantes e uma única avenida?
O motor é o senhor, nada nos salvará. No alto da rua a cruz brilha ao sol, num calor de 38 graus. Eu transpiro no deserto urbano de estranhos camelos motorizados, alguns camelôs, lojas de 1,99 na mesma proporção dos carros. Numerosas, exaustivas, incontáveis. A história das pequenas cidades nunca mais será a mesma. A paisagem bucólica pertence aos nomes antigos: Tatuí, Boituva, Porto Feliz. A vida em curvas, nenhuma ponte para o desenvolvimento humano. No lugar da placa "não estacione", deveriam avisar: "O mundo sem pernas, roda."


