CÉLIA MUSILLI - O Minotauro foi meu amigo de infância
Entre as brincadeiras de fim de ano nas redes sociais, uma das mais comuns é citar os "dez livros que marcaram sua vida". O assunto tira a poeira dos neurônios, faz a gente voltar ao bê-á-bá da literatura, aos primeiros passos ou primeiras linhas. "O Minotauro", de Monteiro Lobato, encabeça a lista das minhas preferências. Tenho mesmo a impressão de voltar a um labirinto quando me lembro quantas vezes folheei um livro desgastado pelo tempo que encontrei na estante do meu pai e que parecia vir direto de Creta. A história me seduziu a ponto de achar, ainda hoje, que o Minotauro foi meu grande amigo de infância, talvez porque a capa do livro trouxesse um animal devorando apenas os bolinhos de Dona Benta, o que fazia dele não um touro sanguinário, mas um boi passivo.
Na adolescência vieram outros livros como "O Pequeno Príncipe", de Saint Exupéry, que hoje me traz a desconfortável impressão de ter me dedicado a um livro de miss. Brincadeiras à parte, trata-se de uma história bonita, criada por um autor de talento.
Depois entrei nas obras de Herman Hesse, inaugurando com "Sidarta" uma fase de filosofia oriental que derivaria, nos anos seguintes, para obras mais complexas que li pela metade, incluindo o "Bhagavata Githa", a grande epopeia do hinduísmo. Queria atingir alguma iluminação quando as luzes estavam apagadas. A ditadura ainda repercutia nos anos 80 quando livros de Alfredo Sirkis e Fernando Gabeira conquistaram leitores com suas histórias de luta que, na época, faziam muito sentido. Quase todo mundo teve um pai ameaçado pelo regime, um tio desaparecido ou cujos livros foram queimados no quintal para não se converterem em provas de crime contra o Estado. Era duro engolir que ter alguns livros podia ser crime.
Na biblioteca da América Latina fui tomada pela literatura de Gabriel García Márquez: "Cem anos de solidão", "A incrível e triste história de Erendira e sua avó desalmada" e o belíssimo "O amor nos tempos do cólera", que me fez sonhar com amores que durassem a vida inteira. Em tudo, um universo fantástico mostrava que a literatura era mesmo para nos tirar do chão, proporcionando viagens que só existem em livros e filmes ou em situações muito especiais da vida. Escrever com arte passou a ser um objetivo.
Houve também tempo de muita poesia. Com autores brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, o inevitável Vinícius, Adélia Prado e sua fabulosa linguagem feminina, mais latino-americanos como Pablo Neruda e Gabriela Mistral.
Clarice Lispector traria uma complexidade maior em alguns livros, o mais abstrato e o melhor deles, na minha opinião, "Água Viva". Mas impossível não gostar de "A Paixão Segundo GH" ou "Um Aprendizado ou o Livro dos Prazeres". Encantos que levariam fatalmente às biografias de Clarice, a começar pela de Nádia Gotlib até chegar, mais recentemente, à que foi escrita por Benjamin Moser.
As obras dos surrealistas em poesia e prosa fecharam o ciclo de preferências pelo maravilhoso. De "Nadja", de André Breton, aos poemas de René Chair ou Paul Éluard, para desembarcar no Brasil com Claudio Willer e Roberto Piva. Depois, um acidente de percurso me levou à obra de Maura Lopes Cançado, que converti em dissertação de mestrado por causa de títulos inusitados como "Hospício é Deus", um diário, e o livro de contos "O Sofredor do Ver", até chegar a outro autor fundamental: Campos de Carvalho, que escreveu "O Púcaro Búlgaro" que vi também no teatro dirigido por Aderbal Freire Filho além de "Vaca de Nariz Sutil", "A Chuva Imóvel" e "A Lua Vem da Ásia", obras pouco conhecidas que merecem maior atenção, escritas por um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea.
No mais, é seguir a viagem que começou em Creta, no labirinto do Minotauro, seguindo o fio de Ariadne que nos leva a saídas pela leitura num mundo tomado por religiões falsificadas e Natais convertidos em compras sem sentido, vigorando o consumo instantâneo que não deixa quase nada, como as fotografias de celular.
[email protected]





