Desde o Roda Viva com Bruno Torturra e Pablo Capilé tenho exercitado aquilo que os ninjas chamam de multimparcialidade, que é a capacidade de olhar em volta, colher todas as informações e impressões e, pelo menos como princípio, não sair de cara portando preconceitos como armas. Eles falam em dialogar com todos os partidos, todas as tendências, todas as cores e acho isso muito civilizado. Também gostei que tenham deixado ícones da grande imprensa argumentando como baratas tontas no programa da TV Cultura ao enfrentar tanta novidade: produção em rede, circulação em coletivos, equipamentos para coberturas jornalísticas que cabem num carrinho de feira. Assim atua a Mídia Ninja que deu um banho nas fórmulas consagradas pelas grandes mídias na cobertura das manifestações de junho. Este tipo de transformação aplaudo em pé.
Mas depois surgiram várias acusações ao contexto de produção que eles criaram a partir do Fora do Eixo - do qual a Mídia Ninja é um braço -, que reúne coletivos de cultura do Oiapoque ao Chuí. Um dos artigos que mais contestam a prática dos "fora do eixo" é o da cineasta Beatriz Seigner, que relata de forma traumática sua experiência com o grupo ao qual concedeu os direitos de exibir um filme em festivais e locais públicos sem que isso lhe resultasse em contrapartida financeira ou mera atribuição de créditos na divulgação.
Acho que Beatriz, como os jornalistas do Roda Viva, têm dificuldades em compreender uma lógica que atravessa e extingue a monetarização dos bens culturais como as artes e, agora, o jornalismo. O que os ninjas propõem é a circulação em rede de forma alternativa, horizontal, sem um controlador intermediário – que é o papel da empresa jornalística ou da indústria cultural - com o produto passando diretamente do criador ao público.
Gosto da amplitude do pensamento deles, de como usam uma tecnologia básica, no caso do jornalismo, para coberturas complexas como as manifestações de rua. Eles fazem o espectador da internet sentir-se no meio do protesto, tal o grau de originalidade da informação apresentada sem edição e sem cortes, realmente ao vivo e sem vestígio do script manjado das TVs comerciais com seus repórteres-personagens. Sob este ponto de vista, os ninjas resgatam a credibilidade da informação tirada na boca do forno e servida sem que ninguém assopre para que esfrie.
Mas, ainda no exercício da multimparcialidade, confesso que desde o programa não senti firmeza no modo como explicam o que seria a remuneração dos que trabalham no grupo. Falam em custos de 900 reais por pessoa entre os que habitam casas onde funcionam os coletivos, ao que parece com todo mundo trabalhando por este valor e mais uma boa dose de amor à camisa. Olha, de amor à profissão eu entendo, tenho tanta paixão em ser jornalista que uma vez fora de uma redação diária não deixei de fazer notícia. Mas acho que meu trabalho deve ser sim remunerado porque jornalismo é minha profissão, não meu hobby. Então, vejo os ninjas como o máximo em experimentalismo e transformação do estágio do jornalismo industrial para um estágio de desapropriação da notícia. Mas ainda acredito que ideias devem servir também para nos alimentar culturalmente e incluo aí a sobrevivência de quem pensa.
Mais, acho que o trabalho intelectual deve ser bem remunerado sobretudo numa sociedade em que um carro vale mais do que dois anos de pesquisa para escrever um livro. Pode ser que neste sentido minha lógica seja anacrônica ou que os ninjas que inventaram um modelo revolucionário de produção precisam completar a ideia com um modelo revolucionário de ganha-pão, porque ainda não vi esta proposta ou não compreendi o que está além do dinheiro "real" como contrapartida. A troca? A "brotheragem?" Ótimo. Mas qual o limite do escambo? Para trabalhar quase de graça, sendo o bem cultural – arte ou jornalismo – um trabalho autoral, ainda prefiro conduzir meu próprio carrinho de feira e levar o crédito em meus artigos, produzindo mesmo sem qualquer intermediação de controle.
Mas não se esqueçam, estou apenas exercitando a multimparcialidade porque adoro experimentalismos e acho a ideia dos ninjas criarem um site onde o clique ou curtição em cada artigo, por exemplo, valeria um real de verdade uma boa notícia. Será?

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