Muita gente deve se lembrar do filme ''Furyo - Em Nome da Honra'', uma realização emblemática de 1983, dirigida por Nagisa Oshima. A música ''Merry Christmas, Mr. Lawrence'' é um dos pontos altos do filme, composta por Ryuchi Sakamoto, que também participa do elenco.
''Furyo'' me lembra os anos 80. Me lembra os amigos japoneses e também os brasileiros versados na cultura nipônica. Londrina cresceu sob grande influência dessa cultura. Na cidade concentra-se a maior colônia japonesa do Brasil, depois de São Paulo. Assim, foi natural conviver com os costumes de um povo tão diferente e, ao mesmo tempo, tão próximo. Um povo que me encanta pelo senso estético e me assombra pela disciplina e a rigidez dos costumes.
Da minha parte, eu nunca morreria pela honra. Pelo menos não pelo que ela representa em matéria de exigências e regras, muitas vezes caducas. Prezo demais a liberdade para vestir um uniforme de herói, ainda que seja a de um ''herói cultural''. Mas essa honra já perturbou bastante a psique dos japoneses, talvez um dos povos que mais se confrontam e sofrem para bancar os próprios valores.
Um catalizador desse sentido da honra, em sua pulsão máxima, foi Yukio Mishima (1925- 1970). Autor de 20 romances, 33 peças teatrais, 80 contos e vários ensaios, ele escolheu o militarismo para expressar seu reconhecimento e amor ao Japão tradicional. Levou a um limite tão doloroso a ''questão da honra'' que acabou morrendo disso. Tinha lá suas razões. Inconformado com os rumos de seu país após a Segunda Guerra e a crescente influência do ocidente sobre seus costumes, Mishima, então respeitado e reconhecido como intelectual, insurgiu de forma extremada contra a deterioração da tradição e se suicidou publicamente, num ritual permeado pela dramaticidade que vai muito além do drama natural de um suicídio, enquanto decisão individual ou resposta a impasses existenciais sem saída.
Mishima cometeu o seppuku - ritual de suicídio dos samurais - em 1970, diante de uma plateia de mil homens que formavam um exército paralelo sob seu comando. O ato aconteceu no pátio central do quartel. Ele realizou assim, de forma teatral, o que considero uma ''celebração à estética da morte'', depois de ter cumprido um longo ciclo de ''celebração à estética da vida''.
Mas o suicídio de Mishima também comporta a angústia inerente ao humano, condição que muitos têm em comum e para a qual não existe uma resposta lógica, porque se tratam de emoções subjetivas que implicam em crenças, valores, paixões e desencantos íntimos e universais.
O contraponto à angústia japonesa e suas expressões possíveis na vida ou na morte, encontro no zen budismo. A filosofia que se desdobra através de vários caminhos, chamados Dô, numa espécie de celebração da existência, no que ela contém de simplicidade e beleza.
Fazem parte dessa busca, entre outras coisas, o Kendô, a arte da espada, ou o Chadô, também conhecido como ''cerimônia do chá''. Esses caminhos colocam o homem em contato com sua porção divina, através da natureza. Seja na superação física da arte de manejar uma espada de forma quase mágica ou na atitude paciente e contemplativa de beber o chá, ritual que acontece numa sala aberta para um jardim, integrando anfitrião e convidados às flores e às pedras, ao céu e à água.
A cerimônia do chá, que tive a oportunidade de compartilhar uma vez, é uma lição de beleza e harmonia. Uma lição de como manter a mente tranquila e a salvo das perturbações que incluem a disciplina exacerbada e a honra, sob uma ótica nefasta ou uma ótica que mata. Porque ninguém merece morrer pela honra. Antes, que se viva pela poesia da existência.

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