CÉLIA MUSILLI - O homem atrás do mito
O filme Um Método Perigoso, em cartaz em algumas cidades, mostra um momento decisivo da psicanálise. Dirigido por David Cronenberg, com roteiro de Christopher Hampton e John Kerr, articula-se em torno da relação entre Freud (Viggo Mortensen) e Jung (Michel Fassbender) mostrando sua aproximação e rompimento. O filme aborda a história de Sabina Spielrein (Keira Knightley), uma paciente histérica, tratada por Jung, sob a supervisão de Freud. Jung envolve-se com a paciente e a partir disso o filme perpassa questões como a da ética profissional, além das diferenças entre o pensamento de Freud e de seu discípulo Jung.
Mais do que abordar o filme, me interessa pontuar o que a figura controvertida de Jung me inspira. Controvertida porque é autor de uma obra admirável e de uma história pessoal que deixa muitas arestas à mostra.
Sou admiradora da obra de Jung e da sua vertente analítica intuitiva, sua ''pegada'' antropológica e cultural sintetizadas no estudo dos símbolos, tão caros a qualquer civilização. Gosto da sua abordagem do inconsciente coletivo, disposta na reprodução de parâmetros simples como a do encontro de culturas díspares em rituais repetidos, como o de bonecos enterrados da mesma forma na África ou na Europa, num padrão reconhecível, embora séculos separem o mesmo ''ritual'' de enterro mágico dos bonecos de barro em caixinhas. Como não reconhecer a investigação, a acuidade e a sensibilidade cultural em toda sua obra?
Sei também do encantamento mútuo entre Jung e Freud, nas origens da psicanálise, sendo Freud o mentor e Jung seu provável sucessor, até que vieram as dicotomias, com diferenças inconciliáveis. E aí, além da obra, entram as práticas e comportamento de Jung como sujeito, mostradas em biografias e filmes que dão conta do homem atrás do mito. E atrás do mito o homem perde a dimensão, fica menor, a começar por sua relação com Sabina Spielrein, sua paciente histérica, vulnerável e brilhante que se transformaria numa das psicanalistas mais importantes de seu tempo, até ser dizimada na Rússia stalinista.
Outro filme sobre Sabina e Jung - Jornadas da Alma - mostra uma relação afetiva perturbada por uma condição desigual de analista e paciente, homem e mulher, ela entregue, ele esquivo, colocando os dois como antagônicos na compreensão dos seus próprios caminhos. Freud discordaria da relação que Jung manteve com sua paciente por julgá-la antiética e avessa aos princípios de um tratamento psicanalítico. Do que se sabe - e descolando o homem do mito - diria que Jung preferiu uma atitude omissa, a partir do envolvimento ''até certo ponto'' com sua paciente, conquanto isso não resvalasse no conforto da sua vida conjugal e familiar. Sobre isso, como macho padrão nos séculos 19, 20 ou mesmo 21, ele não abdicou das benesses do casamento em favor da mulher/paciente. Uma histérica, diga-se de passagem, e sujeita a toda vulnerabilidade e descontrole de suas crises.
Num momento histórico embalado pela revolução russa, Jung passa o recibo de bom burguês configurado na relação quase aristocrática de um ''bom casamento''. Aparece aí a primeira ponta da sua atitude anti-revolução de costumes. Um desastre, porque para que servem as teorias de libertar o homem senão para a prática da liberdade?
No entanto, o problema é nosso ao desejar coerência na vida pessoal e profissional das pessoas. Elas não estão alinhadas, ainda que a gente julgue que um bom analista seja um homem bem resolvido, ele não é. É vulnerável e capaz de dar péssimos exemplos, onde desejamos justamente a redenção dos erros dos mortais.
Então, a primeira decepção é o confronto do Jung psicólogo, estudioso da natureza humana e de seus símbolos, e sua prática afetiva e sexual corriqueira. Porém o que pesa, mais que esta prática, é sua aproximação com o nazismo, do qual tornou-se um simpatizante, assumindo em 1933, ano de ascensão de Hitler ao poder, a presidência da Sociedade Médica Internacional Geral para a Psicoterapia. Há relatos de que ele teria insuflado a antipatia dos nazistas pelas teorias de Freud, numa argumentação anti-psicanálise que teve lugar num programa radiofônico que mantinha em Berlim.
Assim, obscurecida por sombras de conduta, a biografia de Jung passa à história com interrogações: qual era a dele, afinal? Entre o homem, o mito e seus ''pecados'', fico com sua obra. Há obras que sobrevivem às contradições da conduta afetiva, pessoal e política, este, me parece, ser o caso de Jung, embora desejemos sempre a coerência entre o homem e o mito que se fragmentam no espelho da sua própria história.
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