CELIA MUSILLI - O fim do drive-in
Li uma reportagem sobre o ''último drive-in do Brasil''. Falar em último é exagero, isca jornalística, mas é verdade que este tipo de cinema ao ar livre está em extinção. Foi-se o tempo em que casais de namorados, a fim de um amasso no escurinho, iam a um drive-in com a desculpa de comer sanduíches e depois saíam com aquela cara de satisfeitos.
Hoje não há porque arrumar desculpas, nem porque inventar um gosto desvairado por sanduíche. Os filhos das minhas amigas namoram em casa, no seu próprio quarto. Meus filhos ainda não namoram deste jeito, mas sinto que não demora muito e vou dar de cara com uma loirinha ''periguete'' lá em casa. Pergunto pelas meninas e eles já se contorcem feito dois lagartos. Sinal de que sabem muito bem do que estou falando.
Mas voltemos ao drive-in que, segundo a reportagem, foi inventado nos Estados Unidos - claro - nos anos 30, e virou modismo pelas quatro décadas seguintes. Nos anos 70, quando havia drive-ins na minha cidade, eu era ainda muito jovem para frequentá-los. Nos anos 80, eles foram caindo em desuso, porque havia mais motéis por metro quadrado do que cinemas em qualquer cidade do interior.
O charme dos drive-ins, como dos motéis, era aquela espécie de clandestinidade que proporcionavam. Os carros chegavam de faróis apagados, os casais torcendo para não dar de cara com outros conhecidos e, assim, entravam e saiam quase invisíveis, de vidros fechados, num tempo em que fazer sexo, enquanto solteiros, era ainda uma transgressão.
Os drive-ins levavam as pessoas àquela atmosfera de permissividade que pintou primeiro nas telas, com loiras lânguidas sendo exportadas de Hollywood para o mundo, e artistas divulgando seus recordes na cama, como se sexo fosse uma espécie de Olimpíada para poucos e bons. Mas também eram ambientes muito íntimos, onde as pessoas se afundavam nos carros, deixando o mundo lá fora, num clima simultâneo de discrição e risco.
Hoje, dizem, o sexo foi banalizado, tudo ficou muito fácil. Tão fácil que perdeu a graça, tão comum que ninguém se sobressalta ao sair e entrar de um motel e dar de cara com os outros, a menos que o ''outro'' seja algum parceiro enganado, porque há coisas que nunca mudam.
Mas as ''periguetes'' que se atiram para os meus filhos não são muito diferentes da minha geração de minissaia ou da geração da minha avó mostrando o tornozelo, para deixar nossos avôs malucos. A sedução é a grande arte da humanidade, o exercício no qual testamos nossa capacidade de atração. Homens e mulheres querem atrair. Só que há um desvio proporcionado pela indústria midiática que divulga os recordes sexuais de um Warren Beatty - dizem que ele teve perto de 12 mil mulheres - e caímos no engodo de querer ser Warren Beatty, quando amor não tem nada a ver com a busca desenfreada de parcerias na cama.
Tudo o que é demais é muito, tudo o que é demais, enjoa. Amor? Amor é mais delicado. Talvez as sessões românticas proporcionadas pelo escurinho do drive-in tenham sido a última ''cortina'' que separava o privê do público, a qualidade da quantidade, o sussurro do declarado, o íntimo do descarado. Quando perdemos a delicadeza, sobretudo em matéria de sexo, transformamos emoções em produtos, mas não será com afetos descartáveis e erotismo em rodízio que chegaremos à felicidade. Isto só funciona em propaganda de carro ou de sabão.
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