Tenho uma edição antiga de "As Flores do Mal", de Charles Baudelaire, da editora Max Limonad (1985), comprada em sebo, com tradução de Jamil Almansur Haddad.
Dia desses dediquei um tempo a ler o prefácio que é mais antigo ainda, de 1957, incorporado a esta edição. Interessante saber que alguns poemas de Baudelaire, anteriormente condenados na França, só foram traduzidos no Brasil nos anos 50, tendo em vista o preconceito que cercava criações como "O Letes". Outros poemas circulavam por aqui desde o século 19, mas o que determinou a tradução tardia foi ao temática, mais ou menos palatável.
Em "O Letes", a referência à necrofilia deve ter sido o motivo da censura quebrada pela primeira tradução feita pelo próprio Haddad. Segue um fragmento:

Vem ao meu coração, surda alma irada
Tigre adorado, meu monstro indolente
Quero afundar a minha mão tremente
Na tua espessa crina tão pesada
...
Nas tuas saias perfumadas, junto
Ao teu colo, enterrar fronte saudosa,
E respirar, como fanada rosa,
Doce bolor do teu amor defunto.

...

Para engolir os meus mudos arquejos
Nada me vale o abismo de teu leito;
Tenso nos lábios o olvido perfeito
E o Letes vai fluindo nos teus beijos

...

Da mesma forma, poemas como "Lesbos", "Les damnés" e "Les Bijoux" demoraram para ganhar tradução no Brasil, por tratarem de sensualidade, sadismo e vícios que não podiam entrar nas salas de visita. Por muito tempo, teve-se por aqui um "Baudelaire para famílias", segundo o autor do prefácio.
Ao mesmo tempo, Baudelaire influenciou enormemente a poesia brasileira, desde Castro Alves até Augusto dos Anjos. Haddad também cita esta aproximação pela via do satanismo de Baudelaire em Álvares de Azevedo, visto pelo lado difuso da influência da maçonaria no Brasil e vai mais longe: diz que o diabo era figura mais bem aceita por nossa sociedade por uma relação estreita que vinha desde os índios que cultivavam a diabolatria.
De forma engraçada, ele faz esta associação a partir de um texto do Padre Vieira, "Relação da Missão da Serra Ibiapaba", que conta como um feiticeiro indígena de Pernambuco homenageava o capeta erguendo num terreno o ídolo composto de penas, de forma a ter fartura e terra fértil porque não era outro, senão o diabo, quem tinha poder sobre as sementeiras.
Limito-me a registrar o lugar histórico e poético que o tinhoso sempre gozou em nossas terras. A obra de Guimarães é repleta desta influência, desenvolvendo "causos" de forma magistral, coisas ouvidas nos sertões de Minas, onde o diabo sempre correu solto, pelo menos de boca em boca, de estrada em estrada.
Aliás, o diabo velho é tema de literatura, arte e filosofia que se perde nos tempos. Por necessidade de antagonismo o demo, como Deus, vive desde sempre e não morre nunca. E viva Maniqueu que nos ensinou a perceber essas dualidades.

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