Existem poemas que dedicamos a uma única pessoa e que enviamos numa caixa desejando que cheguem a um só endereço, ao coração de quem ama ou ao coração de quem não ama mas que, ainda assim, gosta de poesia pelo que ela contém de surpresas e revelações.
  Alguns destes poemas exclusivos às vezes extraviam, rebelam-se à condição de se restringirem a uma única pessoa e soltam-se como uma pipa ao vento, levando notícias, soprando recados que sobem da Terra para o céu. Um dia, um dos meus poemas tomou este destino, voou como uma pipa e, em vez de ser lido por uma só pessoa, escapou da caixa e passou a ser lido por muitas pessoas. Percebi então que ele mexia com lembranças remotas, imagens de cartão-postal, cenas de infância, memórias de pequenas cidades, constelações de sentimentos múltiplos.
Ele se chamava ‘‘Receita’’ e era assim:
guarda um pedaço da Lua
uma fita, renda,
um ramo de trigo
e mesmo nas noites mais frias
um antigo poema estará contigo
  Muitas pessoas tomaram este poema pela mão. Alguém disse: ‘‘Levarei comigo para sempre esta delicadeza’’. Assim, vi o poema partindo e se repartindo como pão. Quanto mais ele se espalhava, mais endereços encontrava: corações distintos, portas abertas, ruas desconhecidas, cidades inexploradas, todos os pontos cardeais. O poema virou um viajante, um nômade que atravessou o deserto e o transformou num território de esperança. Alguns gostavam de suas sutilezas, outros o comparavam à caixinha da qual havia escapado, destas em que a gente guarda folhas secas, contas de vidro, um colar arrebentado, às vezes, uma tesourinha que apara dificuldades e arestas.
  O segredo deste poema, mais do que mexer com a solidão e a memória, era transformar objetos inanimados em companhia. Alguém comentou a ‘receita’: ‘‘É tudo fácil de se conseguir, tenho tudo isso em mãos e vou aproveitar porque o inverno já começou a mostrar as caras aqui, no interior do Brasil’’.
  Num único dia, mais de quarenta pessoas leram o poema ao seu modo. Pelo direito e pelo avesso, pelo viés do encontro e do desencontro, do achado e do perdido. Soube de quem o degustou com o café da manhã, quem o levou de noite para uma cama quentinha, quem o enviou para um namorado fugido ou um amigo desaparecido, confiando em seu código de revolver memórias, avivar lembranças, dar notícias a quem saiu sem deixar recado, mas deve andar por alguma estrada onde sempre brilha a lua e um ramo de trigo maduro.
  Para mim, a grande lição deste poema foi entregá-lo à liberdade, ainda que tenha sido feito para caber numa caixa com fitas. Ele criou novos laços e gira por aí como um caleidoscópio, revelando-se, a cada novo olhar, como uma paisagem que se multiplica sem nunca perder a ternura que lhe deu origem numa noite de julho, cheia de sortilégios e estrelas rebeldes.

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