CÉLIA MUSILLI - O despertar da força
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de janeiro de 2016
Outro dia no shopping, na fila do caixa eletrônico, uma mulher puxou papo.
- Você viu, menina, o que os vândalos fizeram com os bancos em São Paulo?
- Vi.
- Um horror e ainda criticam o Alckmin porque põe a polícia atrás dos baderneiros.
- Pois é.
Ela insistiu:
- O que você acha disso?
Respirei fundo e tasquei:
- Eu apoio os protestos e tenho vontade de quebrar os bancos sem máscaras porque eles me quebram todos os dias. Também quebraria as financeiras e as agências de cartões de crédito que cobram juros extorsivos de mais de 400% ao ano, são os juros mais altos do planeta. Também quebraria a cara do governo por permitir que os bancos e os cartões de crédito nos roubem descaradamente.
Ela: "Mas você não acha que o Alckmin tem toda razão de chamar a polícia para por ordem nos protestos?"
- Não, ele e o prefeito gourmet estão errados quando jogam a PM em cima da população.
- Quem é o prefeito "goulrme"?
- O Haddad que vê tudo e não faz nada.
- Ué, mas você não é do PT?
- Não.
A essa altura, ela ficou me olhando sem saber com que tipo de alienígena estava lidando e, sem se aguentar, perguntou:
- Mas se você não é do PT, nem do PSDB, em qual partido você vota?
Com enorme paciência, busquei em meus arquivos uma resposta plausível que venho repetindo nos últimos anos desde que passei a votar nulo: "Sou um tipo mutante, pouco conhecido ainda. Um tipo que não acredita mais em partido, nem de direita, nem de esquerda porque as coisas se misturam, principalmente no Brasil, e o único caminho é ser independente e tomar atitudes anárquicas."
Ela: "Mas anarquista não é um tipo que gosta de bagunça?"
Eu: "Não, minha senhora, o anarquista é um tipo que carrega a utopia do mundo, a utopia necessária que consiste em não ter partidos, fazendo o balizamento dos erros da esquerda e da direita, mantendo a liberdade como um estágio permanente de cidadania. A gente não pensa nem age conforme o partido determina, é livre para pensar sobre cada situação que vai surgindo e dá a razão às coisas conforme nosso raciocínio sobre aquele fato e sempre considerando o controle do Estado desnecessário. Por exemplo, nunca serei favorável ao Estado usar a força bruta contra a população, nem favorável a governos que mandam a polícia sair batendo como forma de sufocar um protesto. Há outros caminhos, como a negociação, o diálogo que combinam mais com um regime que chamamos democrático."
Ela arregalou o olho e disse: "Que gente esquisita". Ri sozinha ao perceber que o mutante político dá nó em pessoas de pensamento binário, aquelas que só consideram a esquerda ou a direita, o PT ou o PSDB, o preto ou o branco, sem analisar cada caso, com suas variáveis e semitons. Compreendi que é difícil o mutante ser compreendido porque não fala a linguagem comum, nem tem comportamento padrão. Então, dei meia volta, peguei meu dinheiro contado e fui com meu filho assistir a "Star Wars, o despertar da Força".
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