CÉLIA MUSILLI - O corpo rebelde
A capixaba Dora Vivacqua (1917 -1967) adotou o nome Luz del Fuego nos anos 50 e incendiou o Brasil. No auge de sua carreira de dançarina, pregar o nudismo e dançar com uma cobra enrolada ao corpo era coisa de gente devassa, ainda é. Cinco décadas depois não nos permitimos tanto, mantendo a posição de quem nasceu vestido. Decote pode, saia curtíssima pode, embora o corpo entrevisto seja às vezes mais sedutor que o corpo visto. Mas nudez total continua sendo "coisa de artista" e olhe lá.
Luz del Fuego era provocativa até no nome, tirado da cor de um batom que ganhou de um namorado argentino. Na juventude em Vitória (ES), aos 17, 18 anos, desfilava de calcinha e bustiê improvisado com lenços, antecipando os biquínis. Sem risco de redundância, era uma pessoa para quem a nudez estava na pele, no sangue, algo assim como a "revolta da espécie vestida", o que lhe valeu internações psiquiátricas.
Mais tarde mudou-se para Rio, onde foi bailarina e naturista. Tinha um irmão senador e dispensou o sobrenome importante para viver do teatro sob o pseudônimo que em si já era um fetiche. Pioneira do nudismo no Brasil, Luz del Fuego cultivava a arte exótica de dançar com jiboias, pregava uma integração total com a natureza, era vegetariana, não bebia, nem fumava. Incorporou o naturismo e a liberdade na Ilha do Sol (RJ) considerada o primeiro clube nudista do Brasil.
Nos anos 50, fundou o Partido Naturalista Brasileiro e se candidatou a deputada federal. Se tivesse ganhado, talvez não tivéssemos hoje no Congresso tantos farsantes cheios de pudores e de gravatas.
No livro "Luz del Fuego a bailarina do povo", Cristina Agostinho descreve a Ilha do Sol, o paraíso nudista vivia sob regras explícitas: "Nos fins de semana, os sócios do clube apareciam. Luz controlava tudo, mesmo com a ilha repleta de gente. As roupas deviam ser deixadas na entrada, junto ao pequeno cais de madeira. Era terminantemente proibido levar bebidas alcoólicas, proferir palavrões ou praticar sexo na colônia. A diferença entre naturalismo e libertinagem era veementemente ressaltada: Aqui não é rendez-vous nem motel. Se querem farra e sexo, fiquem nos seus apartamentos em Copacabana. Só eram permitidas as atividades saudáveis. Nadar, jogar vôlei, tomar banho de sol, etc." Claro que era impossível manter o controle nos 8 mil metros da Ilha e os jogos se diversificam, mas não sob a tutela da Luz..
Na Ilha do Sol a nudez era mesmo obrigatória, nem as autoridades podiam andar por ali vestidas. Artistas de Hollywood como Errol Flynn, Lana Turner, Ava Gardner e Tyrone Power frequentavam o clube. Jayne Mansfield foi barrada no píer porque não quis tirar a roupa. A partir dos anos 60, Luz e os amigos passaram a frequentar a Praia de Abricó, ainda hoje reservada ao nudismo.
Tanto anseio por liberdade acabou em morte trágica. Em 1967, Luz del Fuego e seu caseiro foram assassinados na Ilha do Sol. O local voltou a ficar desabitado. Os visitantes dizem que ainda hoje pode-se ver na casa em ruínas o desenho das cobras que eternizaram a dançarina. Ela costumava dizer: "Daqui a 50 anos serei lembrada". Claro que sim, Luz, uma história dessas aparece, no máximo, a cada século. Hoje, tirar a roupa nem demanda ideologia, o marketing se encarrega dos valores.
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