CÉLIA MUSILLI - O cinema dos sonhos
No início do século 20, o cinema de vanguarda abriu as portas da percepção ao público. Transpondo limites, os filmes ofereciam um mergulho no inconsciente a partir das imagens cinematográficas. A ideia de um mundo avesso e secreto, transformado pela Psicanálise em objeto de estudo a partir das considerações de Freud, permitiu uma aproximação do cinema com o universo dos sonhos, percepções que na tela ganharam espaço através de uma fusão de imagens por associações livres. Surgiu assim ''Um Cão Andaluz'', do espanhol Luis BuÀuel, que se tornou peça emblemática do cinema surrealista.
Em ''Um Cão Andaluz'' (1928), co-dirigido por Salvador Dalí, BuÀuel entra no domínio dos sonhos, revelando nas salas escuras pontos mal iluminados da mente humana, sem nenhuma preocupação lógica com da realidade, explodindo os limites de tempo e espaço, princípios básicos da narrativa literária e cinematográfica.
O Primeiro Manifesto Surrealista, de André Breton (1924), influenciou BuÀuel para a dissolução dos limites entre a realidade e o fantástico. Desejando colocar abaixo o senso comum, Breton uniu a ideia de ''mudar de vida'' de Rimbaud, com a ideia de ''mudar o mundo'' de Marx.
Mais que uma revolução estética, o cinema de BuÀuel, nesta fase, incorpora a ideia de uma liberação de desejos, saltam para a tela imagens que estariam aprisionadas na mente por imposição da cultura que só permitia uma existência linear, cheia de convenções que impunham também uma estética.
A implosão das regras em ''Um Cão Andaluz'' surgiu como um libelo que traz imagens absurdas, sequências desconexas e nenhuma preocupação com a continuidade. BuÀuel encampava assim o ''maravilhoso surreal'', entrando no inconsciente para liberar desejos e - por que, não? - acionar a libido, criando uma obra aberta a toda fantasia.
Entre as inovações do filme, que vale a pena ser visto ou revisto, está a supressão da narrativa literária, então atrelada ao enredo dos filmes. Os letreiros em ''Um Cão Andaluz'' propõem uma cronologia imediatamente subvertida. A mesma cena é repetida em lugares diferentes, em tempos diferentes. Um objeto que estava em cena desaparece sem explicação na sequência.
A emblemática cena de abertura, com um personagem que afia uma lâmina para inseri-la de forma cirúrgica no olho de outra personagem, pode ser comparada ao descortinar dolorido de um olhar novo para a recepção deste tipo de arte, uma recepção para a qual o público ainda oferece resistência.
Ao causar no espectador o impacto de uma incisão, o filme propõe a cirurgia necessária para o entendimento do surreal, ainda que doa. Mas esta é apenas uma leitura, entre tantas possíveis. Em tempos de cinema comercial, séries crepusculares e comédias bobinhas, a impressão é que a vanguarda foi extinta como certas espécies do planeta. Olhando pelo espelho retrovisor as propostas estéticas dos anos 20/30, nota-se que não há nada de novo sob as câmeras. Os contemporâneos, quando muito, repetem lições do passado.
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