Lembro-me da Copa de 2002 quando, aqui mesmo na Folha, fiz textos emocionados ou bem-humorados sobre a Seleção que tinha jogadores com "erres" nos nomes, como Ronaldo e Rivaldo. Este ano, pensei com nostalgia naquelas crônicas leves, tive vontade de repetir a façanha, assim como todos desejamos que o Brasil também a repita.
Mas nesta Copa, um bloqueio me paralisa como aquele que Ochoa, goleiro do México, proporcionou à Seleção brasileira no último jogo. Há um muro que me separa dessa alegria dos estádios que sei, estão cheios e embandeirados, mas não consigo gritar gol sem me lembrar do barulho que tem cortado o País de ponta a ponta, motivado não por vitórias, mas derrotas. Não diria que a democracia já foi totalmente derrotada, tivemos tempos piores, mas não vejo com esperança este batuque de coturnos no asfalto, nem as bombas liberando um gás ideológico difícil de respirar e engolir.
Não quero, no entanto, repetir aqui os clichês da direita e tampouco os da esquerda, num momento em que as práticas se misturam, ainda que otimistas de plantão não enxerguem um palmo de autoritarismo em frente ao nariz da nação. Fico pensando naquela multidão "limpinha", de óculos Gucci, que lota os estádios nas tardes ensolaradas, fico pensando que as famigeradas vaias à presidenta Dilma partiram sim da grosseria dessa gente de educação sem grife, mas penso também nos brasileiros amontoados nas ruas, em frente aos telões que sobraram nesta Copa para eles quando o assunto é alegria popular, aquela alegria sem dentes que ficou fora dos estádios.
Houve avanços nos últimos anos? Sim, não nego minha satisfação ao constatar um número maior de estudantes pobres, oriundos das escolas públicas, frequentando as universidades. Este para mim é um trunfo inegável, bem como a criticada Bolsa Família que garante o arroz e feijão de muita gente que nunca viu um filé com batatas fritas.
Mas há contradições imperdoáveis como as que vieram na carona desta Copa, de estádios milionários que ocuparam o espaço da população enxotada para a realização da festa. Calcula-se que 400 mil pessoas – entre moradores e até ambulantes – foram prejudicados com essa "higienização" das cidades-sede, cartões-postais para poucos. Uma das maiores deficiências de tratamento de esgoto ainda está em Cuiabá, onde no próximo dia 24, o Japão joga com a Colômbia. Penso que os disciplinados torcedores japoneses, que recolhem o lixo nos estádios, podem deixar uma boa lição por lá. Cuiabá e Manaus estão entre as cidades mais sujas que já vi. A proximidade com grandes rios e o esgoto a céu aberto pioram a situação. Mas ninguém fez os cálculos para melhorar a qualidade de vida urbana no Brasil e, no fim, a FIFA embolsou US$ 2,4 bilhões com os preparativos para a Copa e ninguém pensou em destinar R$ 1 milhão para canalizar as sujeiras biológicas que respingam na ética dos governos.
Mas vamos à Copa porque as críticas se esfacelam no fundo das redes. Gol é um mantra nacional, ilusão e desejo de que tudo vai bem e não me cabe neste domingo estragar a festa, embora proteste até o fim pelo que considero um abuso: o excesso de investimento no futebol num País carente. Pior é reprimir a carência com Tropas de Choque que me lembram a infância nos anos 70, quando aplaudíamos com inocência um espetáculo que serve como hoje a governos que investem na vaidade cívica.
No momento sou uma patriota do contra, aquele tipo indigesto que a turma do "relaxa e goza" não engole muito bem. Mas creio que também não terão grandes impasses ideológicos entre um copo e outro de cerveja. Da minha parte, queria bem mais e, embora torça também pelos gols, no fundo da rede vejo que os peixes do Brasil são pescados facilmente com tarrafas, quando não por garrafas. Viva a rebeldia dos tucunarés, que não admitem predadores.

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