Célia Musilli - O Brasil com cara de século 20
Há décadas ouço falar de vida alternativa, um sistema que nos colocaria de forma diferente diante de coisas que interessam a todos. Só que há décadas, vejo a maioria das pessoas cometendo os mesmos erros em coisas simples que, se fossem mudadas, inaugurariam um novo mundo. Às vezes acho que o homem não quer inaugurar mundo algum, está satisfeito com este modelo cheio de mazelas, diferenças sociais gritantes, hábitos que nos colocam em situação de atraso. Olhem para as cidades: montanhas de lixo a céu aberto - que me fazem sentir vergonha de ser gente - mostram que, de modo geral, não mudamos nadinha.
De que vale a propaganda ideológica ''para um mundo melhor'', aquele dos comerciais de margarina, quando jogamos as tampas da civilização por aí, sem nenhum cuidado, quando pioramos a vida embalados por hábitos toscos que nos fazem carregar sacolas plásticas do supermercado para casa todos os dias, preferir garrafas pet a embalagens de vidro, jogar cigarros no chão. Não há outra explicação, nossa civilização adora a sujeira.
Continua sendo ''moderno'' exibir o carrão movido à gasolina, passar temporadas na praia deixando lixo acumulado em balneários idílicos, empunhar motosseras para derrubar o mato, nos intoxicarmos de porcarias confundidas com alimentos. Sinto pânico quando estou num ônibus ou local público e vejo mães sacarem embalagens cheias de salgadinhos que parecem de plástico, para dá-los aos filhos como refeição. Crianças hoje nascem mamando leite em pó, passam aos ''chips'' ali pelos três anos, frequentam lanchonetes na adolescência e depois ninguém sabe por que se transformam em adultos obesos, irritados e limitados por um consumo mecânico e pobre.
Vida alternativa, devido ao seu longo caminho de conceito na história, já deveria ter sido inaugurada em massa há pelo menos quatro décadas e ninguém está falando aqui em alimentar-se basicamente de nabo e molho de soja, mas tão somente dar ao alimento o valor de algo que deve manter a vida e não degradá-la. Por trás de cada enlatado e suco aromatizado artificialmente sobrevive um conceito de ''desenvolvimento'' que remonta ao pós-guerra, à década de 50, quando criaram a ideia de que seríamos mais felizes abrindo tampinhas de garrafa, consumindo alimentos químicos, empesteando a natureza com agrotóxicos para produzir mais rápido.
Desta ideia errônea nasceram tentativas de acerto que vejo reproduzidas em escala infinitamente menor que a da degradação geral. Meus filhos têm um conceito ambiental mais avançado do que tive na infância, por força da educação que recebem em casa e na escola, mas ainda faíscam de desejo diante de apelos que põem abaixo a vontade de mudar pelo que conservam de fantasia e ilusão nas embalagens de plástico reluzente.
É muito difícil indicar caminhos quando em cada loja há um amontoado de coisas que ganham força, principalmente, em datas fatídicas como o Natal, quando um Papai-Noel fake sai da toca com um saco de imitações baratas da felicidade.
Nestas eleições presidenciais, para minha decepção geral, vi os candidatos que sobraram na disputa venderem a imagem de idealizadores de um Brasil melhor, inspirados em modelos de desenvolvimento que remontam aos anos 50/60, com a indústria automobilística a todo vapor, hidrelétricas sendo construídas, estradas sem fim sendo projetadas para receber mais caminhões pesados e fedorentos que vão escoar rapidamente os bens de consumo. Sim, vocês podem me dizer que tudo isso significa desenvolvimento, mas digo que é apenas reflexo de um modelo ultrapassado que vai manter o século 21 com a cara de século 20, como se tivéssemos pegado um bonde atrasado na história. Só por isso, continuaremos obsoletos, quando podíamos ser a nação alternativa a dar exemplo de vitalidade ao Velho Mundo ou ao mundo velho.
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