Fazia tempo que eu não via uma peça de Mário Bortolotto. No último domingo, no encerramento do Festival Literário de Londrina, assisti a Felizes Para Sempre, direção de Sérgio Melo. A escolha foi boa, apesar da noite chuvosa, destas que nos incitam a ficar em casa. Por algumas coisas, vale a pena contrariar a lógica de ficar debaixo do edredom ouvindo a chuva.
O talento do Mário para a dramaturgia é brutal. Não há outra palavra, porque ele nos empurra da crueza à ternura com uma facilidade que tem sua força nos diálogos que nos atiram de um lado para outro, como uma bolinha revestida de emoção. Felizes Para Sempre, em alguns momentos, me lembra também uma luta de boxe, com um cruzado de direita saindo do palco para acertar o queixo da plateia.
Impossível não se sentir tocado pelo texto que nos revela uma realidade de desencontros e angústias amorosas, dos quais a gente só se livra quando a ironia fina e o humor do dramaturgo aparecem para aliviar as tensões.
Felizes Para Sempre desenha a relação sem saída de três casais, debatendo-se na agressividade que permeia seus casamentos. São casais como estes que circulam por aí e que se mantêm juntos num jogo sadomasoquista, onde sempre há alguém que bate e outro que apanha, numa sucessão trágica do esfacelamento do amor onde só falta o tiro de misericórdia, porque toda tragédia já foi anunciada.
Em Felizes Para Sempre, um único ator - André Martins na montagem londrinense - faz três personagens, três tipos masculinos abomináveis. Um que desaparece por dias, deixando a mulher sempre só, até que ela o imita, sumindo também na madrugada, perambulando nos bares, e o deixa esperando no quarto onde depois se dá um diálogo fatídico que sela e representa uma relação destroçada.
Outro personagem é um inseguro, que se pavoneia e cultiva vaidades, mas, intimamente, duvida da sua virilidade e da própria capacidade de realizar seus sonhos. A mulher, daquelas que sabem exercer a maldade, aproveita-se de suas fraquezas e ironiza sua impotência, escarnecendo da situação a cada frase. Neste quadro, está o casal doente que se completa, aliás, todos ali se completam e, no fundo, se merecem. Menos a garota que compõe o último casal: ele um machão grosseiro, que praticamente a estupra. Ela uma pessoa doce - que o marido chama de Sweet Emily numa evocação a um hit musical - mas que provoca a inveja do marido porque pensa, porque gosta de ler, porque tem delicadeza. Ele tem pavor da preferência dela por Gertrude Stein, sendo que ele mesmo gostaria de ser um escritor, encarnar um Hemingway nunca alcançado.
As atrizes que contracenam com André Martins - Lauren Alves, Monalisa Chicarelli e Roberta Leitão - convencem nos papéis que abrem os flancos das mulheres contemporâneas, perdidas entre a imitação do macho e a preservação da ternura, que parece não caber mais em lugar algum.
Relações inundadas pela agressividade natural que pontuam os finais infelizes, a peça de Bortolotto traça um panorama do afeto decadente entre parceiros que um dia se amaram e no outro não enxergam nem resquício de seu velho amor. Retrato das angústias mal digeridas, das relações que se perdem, do amor deformado nas cenas de cama, Felizes Para Sempre é um texto de 1999 que mantém frescas as desilusões, lembrando as contradições e desmanches das relações sem reciclagens. Os casais são a cara de tantos que perambulam de bar em bar, num prazer efêmero que dá a medida da insuportável solidão a dois.
No texto de Bortolotto, a arte não só imita a vida, como a engole crua, causando um mal estar que tem tudo a ver com o mundo contemporâneo, onde só resta um blues para embalar personagens que cheiram a uísque e à decepção numa noite sem saída, que simboliza a armadilha amorosa arrastada no cotidiano. Se Felizes Para Sempre for reapresentada em Londrina, não deixem de assistir, vale pelo realismo cáustico do afeto abortado a cada frase para nos lembrar que um pouco de ternura poderia ser a redenção do amor em tempos difíceis.
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