CÉLIA MUSILLI - Nus somos
O antropólogo Claude Lévi-Strauss esteve entre as tribos indígenas do Brasil. Em seu livro "O cru e o cozido" faz alusão à passagem do mundo natural à civilização, a partir da descoberta do fogo, como símbolo da conquista da cultura. Mais adiante, nesta parte de sua obra que se completa com mais três volumes - sendo um deles O Homem Nu - ele desloca o código da culinária para o corpo, tratando não mais da comida, mas das vestimentas e adornos ao analisar a cultura de tribos da América do Norte. Strauss, além de transitar pelo universo dos índios, era um entusiasta do movimento surrealista, amigo dos pintores Max Ernst e Paul Delvaux, que pintaram nus com maestria, criando uma estética que inseria na carne elementos do absurdo e do fantástico, numa visão amoral, em nome de um olhar inaugural. Strauss, Max Ernest e Delvaux compreendiam os contextos culturais, as cosmogonias, os símbolos do inconsciente, desdobrando-os como elementos de criação.
Lévi-Strauss e os surrealistas são homens do início do século 20 e ainda hoje suas ideias representam um avanço, em contraste com o obscurantismo que ronda a contemporaneidade - em pleno século 21 - através de redes sociais como o Facebook, que reedita a Idade Média na Idade Mídia ao censurar nus em suas páginas. O homem nasceu sem roupa e o primeiro nu da História da Arte é a Vênus de Willendorff, uma estatueta de 11 centímetros com formas generosas aludindo à fertilidade - descoberta na Áustria e criada há cerca de 22 a 24 mil anos.
A nudez aparece de forma interdisciplinar em todos os ramos do conhecimento, da Antropologia à História, da Ciência à Arte. Os museus do mundo estão cheios de nus e, certamente, Marc Zuckerberg nem deveria pisar no Louvre. O que lhe causaria a visão da Vênus de Milo? Do David de Michelângelo? Ou, fazendo uma transposição para Nova York, o que lhe causariam as fotos de Robert Mapplethorpe que mostra seus genitais e o dos outros em imagens emblemáticas? Mais, Zuckerberg e sua turma jamais deveriam pisar numa aldeia indígena do Brasil onde, em locais longínquos, homens e mulheres convivem nus ou tendo, no máximo, algumas penas no corpo.
No último domingo, quando se realizou o Dia da Livre Manifestação do Nu no Facebook, dezenas de pessoas tiveram suas páginas censuradas. Entre as imagens removidas, as dos índios nus significam o máximo do retrocesso, porque se trata do nu cultural, o nu das tribos, censurado por um olhar estrangeiro que não compreende outros costumes. Um olhar de típicos representantes wasp (white, anglo-saxon and protestant ou branco, anglo-saxão e protestante) que corresponde àquela camada que une, em última instância, poder econômico e discriminação racial.
Na Idade Média, o nu já era visto como coisa do demônio, em especial o corpo feminino contido por cintos de castidade ou atirado à fogueira, sob a acusação de bruxaria, tendo em vista o sufocamento e a morte da libido. Foi preciso que Freud desvendasse a histeria para termos a compreensão do que significa a censura ao corpo e ao desejo. Hoje, com a liberação sexual, não se ouve mais falar em tantos casos de histeria, o que não surpreende porque o desiquilíbrio psíquico está relacionado à repressão sexual em muitos casos.
Mas eis que nos deparamos de novo com a censura ao corpo erótico, ao corpo artístico, ao nu cultural num meio virtual que reinventa práticas de censura e delação colocando uns usuários contra os outros para que mostrem "onde está o nu". O que diriam Lévi-Strauss, Max Ernst, Paul Delvaux, os Irmãos Villas-Boas e Robert Mapplethorpe se pudessem enviar uma mensagem inbox para Zuckerberg? Acho que colocariam em xeque sua atitude insana de sufocar o que faz parte de nossa memória enquanto seres vivos, o corpo nu, antes da nossa passagem para a civilização e suas neuroses. Dentro de nós, sobrevive o nu do homem ancestral, do homem selvagem, do homem livre cuja lembrança aflora nas artes e nos ritos como aquilo que sobrou de mais puro e original, muito antes da invenção do pecado.
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