CÉLIA MUSILLI - Nu, uma paisagem cultural
Iniciamos uma manifestação a favor da Livre Expressão do Nu no Facebook que tem atraído centenas de pessoas: artistas, professores, escritores, sociólogos, psicanalistas, donas de casa, estudantes. O tema polêmico tem suscitado as mais diferentes reações. Houve quem aderiu e quem criticou. Quem comentou e depois retirou seu comentário das páginas, batendo as portas depois de ler alguns argumentos. O nu traz consigo suas inscrições culturais e para muitos ainda é aquilo que se vê nas revistas masculinas. Mas o nu - como toda obra aberta - tem sentidos múltiplos, pode ser o erótico, o das tribos indígenas ou o das tribos urbanas, fotografadas por Spencer Tunick.
Precisamos saber de que nu estamos falando, porque o assunto ainda é totem e...tabu. Não deixa de ser contraditório que numa civilização de corpos escancarados o nu ainda provoque o pânico. Não é preciso procurar muito para ver o nu sendo usado como apelo barato, apelo comercial, de venda de produtos e do próprio corpo, motivo de cobiça e devoramento. Mas ao falar do nu evocando seu sentido natural, lúdico, artístico, poético e de protesto, muitas vezes levanta-se uma carga de preconceitos, uma poeira grossa que incita até mesmo agressões. Repito, precisamos saber de que nu estamos falando: o das coelhinhas da Playboy ou o da tela ''A Origem do Mundo'', de Gustave Coubert, que já foi censurada no Facebook. A censura desta obra de arte nas páginas da rede social foi o que inspirou a manifestação, depois que algumas pessoas foram censuradas, tendo seus perfis retirados da rede, porque publicaram a imagem da genitália feminina pintada por Coubert em 1866, uma tela realista que está no Museu de Orsay, em Paris.
Queremos provocar um debate inexistente, porque todo mundo consome a nudez, mas as reflexões sobre o sentido do corpo na sociedade contemporânea são praticamente nulas ou se restringem a eventos específicos. Não há reflexão coletiva, embora o nu entre na cesta dos ''objetos'' mais consumidos do planeta.
Houve quem discordasse da expressão ''nu artístico'' usada no convite do manifesto que terá em 12 de março seu ponto máximo, com muitas pessoas postando nus na rede. A data foi escolhida por marcar o Dia da Livre Expressão, uma iniciativa da organização Repórteres Sem Fronteiras. Alguns argumentam que ao empregar ''nu artístico'' incorre-se em preconceito contra os outros nus. No meu ponto de vista, quando dizemos ''artístico'' evocamos junto a poesia do corpo, seja o corpo bonito ou feio, gordo ou magro. O nu pode ainda ser erótico ou inocente como o de um homem tomando banho. Só não pode ser esvaziado de sentidos, depois de tanto uso.
O corpo é nosso parceiro, nascemos nus e só nos desvinculamos do corpo na morte. Então, que ele seja encarado como motivo de vida e celebração. Queremos olhar o corpo não só como apelo barato, mas lembrando seus tantos significados. Queremos olhar o corpo sem tanta vaidade e narcisismo, sem tanto photoshop. Queremos olhar o corpo em sua materialidade e forma, não exatamente como um objeto. Queremos olhar o corpo sem vergonha. No link http://www.facebook.com/events/353069764724065/ há muitas opiniões e manifestações sobre o assunto.
No dia 12 de março - quando postaremos na rede social imagens e textos sobre o nu - vamos refletir sobre o corpo. Parceiro de guerra e de paz, ele tem inscrições culturais e muitas, muitas paisagens.
[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net





