CÉLIA MUSILLI - Narrar para não morrer
O livro As Mil e Uma Noites que tem o título mais bonito de toda história da literatura, segundo Jorge Luís Borges possivelmente foi escrito por centenas de mãos, misturando histórias do folclore indiano, árabe e persa. A reelaboração que chegou aos dias de hoje é derivada do período que vai do século XIII d.C. ao século XIV d.C. O que há em comum, nas muitas versões do livro, é que as histórias são narradas por Sherazade ao rei Shariar que matava todas as esposas depois da noite de núpcias porque foi traído por aquela a quem amou.
Esperta, Sherazade casa-se com o rei e sobrevive contando uma história que tem continuação nas próximas noites, deixando a porta da curiosidade sempre aberta. O truque lembra as novelas feitas em capítulos que seduzem e prendem a atenção de espectadores que religiosamente não perdem uma só noite de excitação embalada por uma narrativa.
As Mil e Uma Noites é a consagração da literatura como uma espécie de poder, de feitiço, de mágica capaz de assegurar a sobrevivência de uma mulher que estaria condenada à morte não fosse seu talento para contar histórias. O livro simboliza o valor e o vigor da literatura como recurso que transforma a vida pelo toque da ilusão, da ficção, pela beleza das palavras. O filósofo Michel Foucault define muito bem a função da história que nunca termina para dilatar ou estender a vida: Eu penso em As mil e Uma Noites: falava-se, narrava-se até o amanhecer para afastar a morte, para adiar o prazo deste desenlace que deveria fechar a boca do narrador.
Da fonte iraquiana há um resquício documental cujo título alude às mil noites. São dois fragmentos datados de 879 d.C., encontrados em Antioquia, na Síria, contendo apenas 20 linhas. A pesquisadora Nabia Abbott as localizou entre papiros árabes adquiridos pela Universidade de Chicago durante a Segunda Guerra Mundial e escreveu um artigo a respeito.
Segue a tradução da segunda página destas 20 linhas, com interferências, entre colchetes, de Nabia Abbott. As informações repassadas aqui foram encontradas na internet por pura curiosidade, depois que vi uma ilustração antiga do quarto de Sherazade. Quem quiser saber mais deve ler durante mil e uma noites tudo o que já se disse a respeito do livro.
Vida longa aos leitores!
Fragmento da segunda página de uma versão
iraquiana dAs Mil e Uma Noites:
Em nome de Deus, Misericordioso, Misericordiador
NOITE
E quando foi a noite seguinte
disse Dinazad: ó minha delícia, se não
estiver dormindo, conte-me a história
que você me prometeu ou um paradigma sobre
a virtude e a falta, o poderio e a ignorância,
a prodigalidade e a avareza, a valentia e a covardia,
que sejam no homem inatas ou adquiridas
[ou] que sejam características distintivas ou decoro sírio
[ou be]duíno
[e então Sirazad contou-lhe uma his]tória que continha graça e beleza
[sobre fulano, o..., e sua m]emória
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