CÉLIA MUSILLI - Movimentos e pausas
Quando nasci meu pai tinha quase 50 anos e as perdas para mim eram fantasmas que cruzavam os dias, com o tempo avançando inexoravelmente sobre as pessoas a quem amava. Essa consciência precoce de que somos todos passageiros nesta vida, criou entre mim e meu pai um pacto de saudades antecipadas, como se soubéssemos que tudo deveria ser vivido com profundidade, de modo a preparar minha bagagem para quando eu ficasse sozinha na estação.
Há lições felizes, como o fato de ele ler tudo o que lhe caía nas mãos, as histórias que contava sobre os hábitos da família calabresa, o gosto em amassar aliche com azeite fazendo com que o aroma e o sabro do alimento nos transportassem a outras trilhas geográficas. Eu gostava de ouvir a história de um tio-avô que deixou a Itália em menos de duas horas, embarcando clandestinamente num navio para a Inglaterra, depois de desacatar a polícia de Mussolini. Episódios assim resultaram num sentido anárquico de política e vida, frequente nos discursos improvisados de meu pai que ecoam como histórias a serem repetidas. Eu o ouvia sem me cansar, como se eu fosse também protagonista dos fatos, experimentando perigo e poesia, fugas e chegadas. Meus parentes dispensavam as formalidades e viviam como gente que tem um coração no peito. Não por acaso, alinho palavras, tentando reter memórias que considero únicas.
Minhas lembranças são mais que papel amarelo e fotogramas desbotados. Há climas de festa, de alegrias de Páscoa, animais de estimação, tentativas desastradas de andar de bicicleta, piqueniques em morros nos arredores da cidade onde eu coletava pedras que eram para mim a prova viva da aventura.
Com o passar dos anos, minha coleção de pedras derivou para outras coleções e me transformei na guardiã das lembranças da família. Aquela que herdou o relógio de parede, o passaporte do avô, as cartas de amor trocadas entre meu pai e minha mãe, as fitas que se desprenderam de um vestido, como se os objetos carregassem uma fração da vida que se transforma. Também aprendi a ser dona do meu nariz e pus os pés na estrada bem cedo.
Fazendo as contas, vejo que ganhei batalhas ou, pelo menos, nunca tive medo de ir à guerra. Tenho assim uma fibra que não se esgarça com facilidade, embora quase nunca consiga me safar da dor. Pensando nisso, vejo que a força que adquiri nos anos de construção da coragem me faz ir em frente mesmo quando os caminhos se fecham. Mas há dias, como hoje, em que confesso que sinto cansaço de tanto chegar e partir. Um cansaço que interfere no meu desejo de criar palavras para tratar da alegria e da dor pelas quais somos todos possuídos e confesso, pai, que talvez fosse mais fácil fazer parte do time dos que têm medo da vida. Ou, pelo menos, ser como um daqueles que não tentam decifrá-la.
[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net





