Ainda me lembro dele como um garoto cantando ''Ben''. A letra desta música fala de um ratinho que ninguém queria por perto, referindo-se a uma repulsa que, de certa forma, Michael Jackson também causaria, a partir da sua estampa transformada durante décadas.
Nos últimos tempos, bem antes da comoção provocada agora pela sua morte, ele era lembrado como a figura deformada que investia em plásticas para se ''curar'' da negação de si mesmo. Devia ter seus motivos para esta busca desesperada de ser outra pessoa.
Apesar da fama, decerto havia a lembrança de quando era um garoto negro e pobre nos Estados Unidos, país racista por excelência. Lá um negro pobre só é aceito depois de comprovar um talento acima do comum, uma voz que ofusca estrelas, um corpo que se move com todos os molejos, um carisma que molda líderes como Martin Luther King ou Barack Obama.
Michael Jackson não enfrentou apenas condições ''impróprias'' para chegar à fama no país dos louros bem-sucedidos. Enfrentou a abdicação da sua própria infância porque, com seu talento precoce, começou a cantar com cinco anos, aos 11 já era um fenômeno do hit parade.
Não é de se estranhar que num canto de sua alma estivesse escondido um garoto abortado, que sonhava com os heróis da Disney a ponto de querê-los bem perto, nem que fosse num mundo ainda mais fake do que a própria Disney: um rancho de luxo ao qual ele chamou Neverland ou Terra do Nunca, um lugar onde ninguém cresce. Da infância abortada à acusação de pedofilia foi um pulo. E o adulto deformado haveria de pagar com dólares o ''relaxamento'' da acusação judicial.
Nunca entendi porque se lava um escândalo com grana e as piores acusações vão para baixo do tapete quando os ''ofendidos'' são ...indenizados. De qualquer forma, se alguém tinha que pagar pelas contradições era o superstar, que podia pagar por elas. O avesso da história permaneceu num silêncio suspeitíssimo que custou ao cantor US$ 20 milhões.
Jackson era o tipo de pessoa que se deixava explorar. Indenizou irmãos, parentes, amigos que se tornaram inimigos. Todos tiraram sua parte da fortuna que parecia não terminar nunca. Até a atriz que foi sua partner no clipe Thrilller - maior sucesso de sua carreira - reclamou indenização pelo trabalho, muitos anos depois de participar do vídeo. À certa altura, ela considerou que, na época, não tinha sido bem paga. Enfim, levou a fama e um pouco mais de grana.
Michael Jackson tomava quilos de medicamentos contra a dor, ninguém sabe direito que tipo de dor. Desconfio que destas que se alojam na alma e para as quais não existem analgésicos. Também tratava suas angústias realizando desejos excêntricos que empresários megalomaníacos colocavam a seus pés, porque ao seu lado tudo era possível. Assim, comprou Neverland porque amava a Disney, comprou os direitos autorais das composições dos Beatles porque amava os Beatles. No fundo, como uma máquina de realizações, quis comprar a felicidade, imaginando que os dólares seriam suficientes e não acabariam nunca.
Um dia, como se fosse roubado pelos quarenta ladrões, descobriu que já não estava tão rico. E, passados muitos anos de sua última turnê, resolveu fazer outra. Mas, desta vez, morreu antes, sem ouvir os aplausos nem realizar mais uma fantasia de poder que foi também o palco do seu sacrifício. Poucos astros encarnam, como Michael Jackson, o ápice da fantasia, o excesso fake derramado como uma doença que se alimenta do talento até consumi-lo.
Ele sai deste mundo sob suas próprias cinzas, como uma Fênix que não ressurgiu a tempo. Mas que cinzas! Sob seus pés elas parecem dançar como a poeira estelar que se desprendia quando ele fazia o passo que o eternizou: moonwalk...Aquele movimento deslizante, para trás, que dava a impressão de um artista que andava mesmo no mundo da Lua. Um ser que não pertencia a este mundo. Um adulto deformado que, ultimamente, ninguém queria por perto. Tanto que morreu praticamente sozinho. Ou quem sabe Ben, o ratinho, estivesse lá, como na letra da música que o lançou à fama, como um garoto negro e pobre que expressava a rejeição cantando assim:
''Ben, a maioria das pessoas mandaria você embora
Eu não escuto uma palavra do que eles dizem
Eles não veem você como eu vejo
Eu gostaria que eles tentassem
Tenho certeza de que eles pensariam novamente
Se eles tivessem um amigo como o Ben...''
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