Célia Musilli - Moça enfrenta linchadores sozinha
Hoje não vou contar uma história de mocinho e bandido, mas de mocinha. Nestes tempos obscuros, em que a cada semana somos surpreendidos com notícias de pessoas sendo linchadas até morte, com ações e imagens da mais explícita violência, deparei-me com um episódio que é o oposto disso. No Rio, em Jacarepaguá, Mikhaila Copello, de 22 anos, uma estudante de arquitetura franzina, evitou linchadores sozinha.
Ela enfrentou um grupo de 20 que queria linchar um ladrão. Se interpôs entre o grupo ensandecido e o rapaz. Mais: enquanto argumentava firmemente, estancou o sangue do moço, que já estava ferido, com o pano de prato emprestado de um garçom. Este detalhe, no meu ponto de vista, teve um peso decisivo no desfecho da história. Ao limpar o sangue do rapaz que já havia recebido chutes e estava com o supercílio machucado, Mikhaila, instintivamente "chamou" pela mãe de todo o grupo transtornado e o desarmou. Nas interpretações de textos ou de pessoas, sabemos o quanto um detalhe é importante e, diante da atitude de Mikhaila e das reações subsequentes, afirmo que o mundo está precisando de mãe. Porque a mãe sempre socorre, perdoa, sempre tem uma compreensão além da óbvia. Isso se aplica não só a representação da mãe santificada, como a de Jesus, mas a de todas as mães, estas que limpam a baba e o sangue dos filhos.
O desfecho desta história poderia ser o pior, como aquele que vimos acontecer com Fabiana Maria de Jesus, dona de casa, mães de dois filhos, assassinada brutalmente por linchamento no Guarujá. Para escrever este texto, acessei um vídeo com as imagens do espancamento e morte de Fabiana para ter parâmetros, não aguentei dois minutos, é de uma brutalidade que ultrapassa qualquer explicação. Tenho horror à incitação de ações coletivas, não gosto nem mesmo quando num bar ou espaço público multidões passam a pedir aos gritos que alguém faça isso e aquilo. Este tipo de coro tem muito de coerção, seja "beija, beija" ou "mata, mata", trata-se da vontade de uns tentando influenciar os outros, um mantra perverso que me parece catarse que pode acabar em tragédia. Vivemos no momento, no Brasil, uma tragédia sem precedentes na história e que começa aos gritos.
O enfrentamento solitário de Mikhaila, frente ao grupo que queria linchar um ladrão, tem contornos perversos, como o da polícia que ao chegar ainda perguntou à moça se ela "gostava de bandidos" ou da moradora do bairro que queria o linchamento porque o rapaz supostamente "havia batido no filho dela." Neste ponto, reflito sobre o quanto a mídia interfere na mente dessas pessoas que pedem "justiçamento" e não justiça. Percebo, no plano inconsciente, o quanto a frase "bandido bom é bandido morto", ofertada direta ou indiretamente por Datenas e Sherazades, repercute em cabeças fracas e corações frios. Repórteres e apresentadores de TV devem ser responsabilizados por seus discursos. Jornalismo exige ética, mais, exige responsabilidade extrema com o que se difunde. Diante do que está ocorrendo no Brasil, neste momento extremamente delicado, este tipo de disseminação de ódio deve ser evitada e, se ocorrer, punida com leis apropriadas.
O desfecho do caso de Jacarepaguá, foi mais feliz do que os últimos que entraram para a história da barbárie nacional. O ladrão foi preso, mas não foi linchado pela horda possuída por um sentimento que não passa de uma expressão do mal. Um mal que nos habita e consome, caso a gente não tenha mais sensibilidade, mais clareza, mergulhe na ignorância definitivamente, fazendo a vida humana equivaler ao lixo. No vídeo do assassinato de Fabiana, seu corpo é revolvido como entulho, ela foi espancada até o fim, até a turba de covardes achar que era suficiente e partir para casa gloriosa de seu feito. Orgulhar-se do mal é sintoma de decadência, um processo de inversão de valores que vai contra à civilização.
Lendo a notícia sobre a moça franzina que salvou um ladrão do linchamento, estancando seu sangue, remeto-me a imagens da cristandade, do Cristo livrando a pecadora do apedrejamento, e penso que apesar da violência, o que pode salvar a humanidade é a compaixão. Também não acho que devemos nos salvar para depois da morte, devemos nos salvar para a vida mesmo. O medo de intervir para salvar só nos faz piores. Não peçam só a intercessão do Pai, intercedam.
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