Célia Musilli - Meu flerte com o ciúme
Hoje acredito em antídotos para o veneno do ciúme, mas foi difícil descobrir e usar Não sou daquelas que procuram pulgas na juba do leão nem batom em lugares insólitos Mas passei pelas provas de fogo do ciúme mais com soberba do que com vexames, mesmo quando me contorci, pregando os olhos no teto sem pegar no sono, sentindo o choro chegar como um rio que transborda repentinamente e corre, corre, corre, até secar a nascente das emoções envenenadas, para retomar depois minha vida, lavada e limpa
Não, não dissimulo o ciúme Apenas vivo ao meu modo, deixando o golpe cair no vazio, como faria um samurai que conhece a lâmina, a espada e outros inutensílios do amor
Muitas vezes, senti a cólera do ciúme, o vento da discórdia, sem amassar cachos de flores nem despentear os cabelos Pensava: para que tanto movimento para disputar nacos de amores divididos? Na evolução dos romances, tratei às vezes o ciúme como a heroína da minha própria história ou aquela que dá o desfecho Porque em vez de espernear, na morte do amor, sempre preferi seu gozo, mas também ganhei e perdi batalhas dando e levando porradas, desde que a provocação me suscitasse algum interesse
Sim, claro que flertei com o monstro do ciúme, encarei-o em ocasiões em que o encontrei à espreita com outras loiras e morenas a incendiar minha raiva Mas sempre avaliei se o trunfo valia a exposição das vísceras, o frio no coração, a paralisia no peito Ou se era coisa que eu poderia deixar como a bola no quintal, a boneca no canto, a lembrança no sótão, indo atrás daquilo que me proporcionasse VIDA, em vez de continuar a busca incansável de uma pista medíocre de endereços em carteiras, números em celular, perfumes em colarinhos
Nesta roda-viva em que senti ciúme - às vezes saltando do trem na hora H para preservar um amor sem trincos e sem trancas - encontrei muitas vezes homens melhores que seus antecessores, maduros para a generosidade de amar sem que o amor se torne um quebra-cabeças ou uma disputa de moças de olhares vítreos, jogadas como bolinhas de gude
Hoje, sempre que posso evito ciúme, esfriando-o com sopros como fazemos com bebidas quentes, na boca é melhor ter beijos e palavras doces O amor vale pelo seu banquete, não pela disputa de um prato dividido Abaixo o self service no amor, quero apenas as iguarias
A certa altura, aprendi também a dar menor importância às rivalidades, contanto que meu amor não tire de mim o que pertence aos dois e é insubstituível, porque cada relação tem uma configuração de prazer que não se reparte com outras pessoas Amores verdadeiros não se reproduzem como carimbos, são obra de arte, de marfim e ébano, madeira e sândalo do oriente
Para cada par somos aquela mulher capaz de fechar os olhos em velocidade sincronizada, abrir os lábios de um jeito único, abraçar com as pernas o que antes seria dádiva dos braços, comunicando uma originalidade de sentidos que não se reproduz em série Então, que venham e passem as outras mulheres como carros de guerra ou ventos da discórdia Converti a violência do ciúme em violenta auto-estima que me faz ver no espelho uma pessoa cheia de valor, e, no momento seguinte, pode estar determinada à renúncia porque ''o que era de vidro se quebrou'' Melhor do que sair na porrada é sair à francesa, porque amar é um ato mágico, acreditem E se não for, acabou
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