CELIA MUSILLI - Memórias de Lévi-Strauss
Claude Lévi-Strauss completaria ontem 101 anos. Mas a notícia de sua morte chegou antes, ele faleceu no dia 31 de outubro e ainda que tenha vivido o suficiente para deixar uma grande obra, ele pertenceu a uma parcela da humanidade que deveria ser eterna. Homens assim sempre fazem falta.
Nascido em Bruxelas (Bélgica), ele foi um dos principais pensadores do século 20, criador da Antropologia Estruturalista que começou investigar o homem sem fazer distinção entre nativos e civilizados. Para ele, todo homem tinha igual valor, integrando qualquer etnia ou sociedade.
Refutando a ideia de que a civilização ocidental é privilegiada, passou mais da metade da vida estudando os índios americanos. A partir destas pesquisas fundamentou o Estruturalismo, valendo-se das experiências obtidas nas viagens ao Centro-Oeste e ao Norte do Brasil, onde mergulhou no raciocínio e na cultura das tribos para valorizar a filosofia indígena. Deste trabalho nasceu ''Tristes Trópicos'', uma de suas obras fundamentais.
Em suas andanças pelo Brasil, Strauss manteve o pensamento crítico. Caetano Veloso registrou na música ''O Estrangeiro'' que ''o antropólogo detestou a baía de Guanabara, pareceu-lhe uma boca banguela''
. Lévi-Strauss também visitou o Norte do Paraná em 1935. Na época, Londrina nascia como a cidade de crescimento mais rápido do planeta, exuberante como território ainda coberto por florestas que, em pouco tempo, sucumbiram a um projeto de civilização implantado pelos ingleses. A visão deste Eldorado e de como os colonizadores usufruíam de suas riquezas, obedecendo à lógica do ''progresso'' capitalista, chamaram a atenção do pesquisador que escreveu:
''(...) no fundo dos vales, as primeiras colheitas, sempre fabulosas nessa 'terra roxa', violeta e virgem, germinavam entre os troncos das grandes árvores jacentes e as cepas. As chuvas de inverno se encarregariam de decompô-las em húmus fértil, o qual, quase de imediato, seria levado de roldão pelos declives, junto com o outro que alimentava a floresta desaparecida, cujas raízes fariam falta para retê-lo. Quantos anos levaria, dez, vinte, ou trinta, até que essa terra de Canaã adquirisse o aspecto de uma paisagem árida e devastada?''
Bastaram menos de quatro décadas para que sua profecia se cumprisse. Nos anos 70, a Canaã tomada pelas plantações de soja - depois do ciclo do café - já exibia cansaço na forma de erosão que se mostrava como veias abertas. Hoje, aqui e ali, pequenos trechos de mata testemunham que sobraram no Paraná menos de 5% de florestas. A maior parte foi arrancada pela força bruta de um processo em que a ganância contou mais que o homem.
Na semana em que a morte de Lévi-Strauss foi anunciada, a imprensa do Paraná dedicou-lhe pouco espaço, esquecendo-se quase completamente de sua passagem por aqui. Nenhuma menção foi feita ao seu encontro com os índios kaingangs, tampouco se mencionou o fato de que ele considerou nossos índios ''pouco selvagens''. Uma pena. Jornalismo também deveria ser memória. Memória e referência.
No seu pensamento de antropólogo havia um espaço de compreensão para a diversidade cultural, conceito hoje muito utilizado mas que, no seu tempo, constituiu-se uma ideia de vanguarda que deu nova configuração à Antropologia, servindo para combater o racismo que colocava de um lado os selvagens e de outro os civilizados. Lévi-Strauss mostrou ao mundo que a potencialidade da mente humana é igual em qualquer cultura, colocando por terra as hierarquias e supremacias raciais. Muitos de seus estudos tiveram por base a linguística.
Olhar para a vida, o homem e a terra de modo integral é uma das lições que ele nos deixa, como catalisador de um conhecimento sensível cada vez mais raro, como as pequenas áreas de florestas que ainda resistem à dizimação de valores essenciais. É dele a frase que soa como um alerta: ''Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele.''
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