CÉLIA MUSILLI - Memórias
Entre tantos pensamentos sinceros, as vivências expressivas não se apagam, ainda que tenham um, dez, mil anos. Me esqueci do que fiz ontem, tivesse alguma importância, não teria esquecido. Como certos pensamentos que descobrimos vivamente adormecidos, as lembranças de ontem perdurariam como o passeio na bicicleta azul e o guidão alto que me desequilibrava quando eu tinha nove anos.
O desequilíbrio é a manifestação da incerteza. Havia uma grande porta de metal no fim da rua. A porta refletia a luz do sol ao meio-dia. Seriam borboletas aquelas luminescências refletidas na superfície metálica? Ilusão de ótica. Quando se tem nove anos todas as luminescências são poéticas. Talvez por isso a infância tenha este contorno mágico. Nunca esqueci e ainda amo as borboletas, muito mais que as portas.
Houve o momento de olhar o mundo de ponta cabeça. As pernas dobradas para cima, a inversão sempre me pareceu tão libertária. Minhas pernas enroscadas num galho. Eu forte, sustentando o próprio peso e o sangue correndo dentro de mim em sentido contrário. Eu apertando os olhos para ver o céu, quase vi Deus. O azul está em todas as minhas lembranças. Azul celeste, azul turquesa, azul piscina, azul-marinho, todos os azuis de ponta cabeça até o escurecimento, a náusea, o medo de cair do galho, como ainda hoje às vezes sinto.
Depois veio o primeiro amor. Os cabelos pretos, o perfil masculino naquela blusa azul. A trama era tão improvável. Ele tinha 18 anos, eu 13. No dia em que tocou a minha mão, meu coração disparou naquela onda que invade o peito como uma coisa muito quente. Uma chama de vivacidade e ainda nenhuma ferida. Mas o amor é um pássaro que foge, ele soltou minha mão e arranjou uma namorada, linda!
Aí veio o porre de licor de menta. A menta se converte em fel no dia seguinte. Minha primeira ressaca foi de licor de menta. Vai ter mau gosto assim lá na China, menina.
Agora, sem ressaca, não consigo me lembrar do que fiz ontem. Por aqui, nenhum acontecimento, só as teclas e o milagre do tempo cabendo em palavras, enquanto risco o presente.
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