Procuram-se pessoas que eliminem tristezas, angústias e dúvidas desnecessárias como quem derrama de um saco de papel os últimos farelos, as cinzas dos cigarros, os copos descartáveis, gente sem conteúdo e outros inutensílios. No lugar disso tudo que sejam colocados afetos, maçãs, sementes para um campo de lírios, mousse de maracujá para os dias quentes e um urso de pelúcia para os dias frios.
É imprescindível ter um sapato confortável para atravessar a cidade ou, quem sabe, dar a volta ao mundo, com direito a mergulhar descalço por algumas léguas submarinas.
Evitem carregar pesos, eles fazem doer as costas. Mas tenham sempre bons livros, filmes de amor, capim-cidreira para os dias tensos, pimenta para dar ânimo quando a vida exigir, um vatapá em vez de salsichas vienenses.
Champanhe é bom, mas água pura é melhor e também sucos de graviola e laranja com gelo. Lembrem-se que leques de palha refrescam e não custam nada. Basta plantar uma palmeira, de preferência à beira-mar, acompanhada de rede e uma música de Caymmi.
Perfumes são bem-vindos, desde que não irritem as narinas nem impeçam que o ar inunde os pulmões nos primeiros dias do ano. E que à noite o orvalho seja uma chuva de bem-aventuranças.
Nesta manhã, reservem tempo para um café demorado e que haja trocas de olhares, sorrisos marotos, carícias que eriçam. A expectativa é de puro prazer e desprendimento. Acreditem nos sortilégios, ainda que por brincadeira, e estimulem a inteligência intuitiva com ''olhos interiores'' que enxergam cada vez mais longe. Lembrem-se que o tempo é uma ilusão, mas vivemos cada dia uma única vez, extraindo deles a plenitude quando somos capazes de nos entregar aos instantes.
Não é preciso ser devoto, mas é bom acreditar em Deus ou nalguma ordem que não deixe as estrelas caírem nem sonhos despencarem no abismo, dos sonhos fazemos a trama da felicidade, uma engenharia complexa que demanda coragem , paciência, uma boa dose de aventura.
Estou fazendo a minha parte, espero que vocês façam as suas usando a imaginação. Se comeremos os frutos não sei, mas deixo sementes no pomar. Os pássaros, como sabem, plantam longe as grandes florestas, fecundando territórios inóspitos que se transformam em massas verdes de esperança. Eles não perguntam quem aproveitará a sombra da figueira, mas sabem que as raízes da árvore-mãe abraçam a Terra como pensamentos íntimos que dividimos com muitos.
Que os sonhos floresçam nesta manhã de domingo.

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