CÉLIA MUSILLI - Mais realidade, menos ficção
Pesquisando para este artigo vi que o primeiro filme sobre corrupção foi justamente Corruption, de 1933, dirigido por Charles E. Roberts. No Brasil há uma série deles a partir dos anos 1950, sinalizando a corrupção política e em outras esferas, a corrupção que entra em casa, que faz parte dos acordos entre amigos, parentes, etc. Como escrevo para caderno de Cultura, em tempo de eleição me sirvo de um banquete que inclui livros, cinema, teatro. Melhor assim do que fingir que moro em outro planeta só para manter uma coerência temática.
A política permeia tudo, até as relações amorosas, com direito a chantagens e pequenas corrupções à base de vestidos e viagens. É a "vendinha" do cotidiano em oposição aos mercadões dos governos. Se quisermos acabar com a corrupção precisamos deixar de ser cúmplices e não aceitar favores que impliquem em votos, qualquer tipo de voto, da eleição do síndico ao presidente da República.
Entre os filmes brasileiros que tocam em política permeada por corrupção é importante observar alguns fundamentais para a compreensão da sociedade brasileira. Eles fazem parte dos ciclos que também representam o avanço do espaço urbano sobre o rural, o ciclo das migrações, do esvaziamento do campo, do inchaço dos grandes centros. Filmes como "O Assalto ao Trem Pagador" (1962), de Roberto Farias, "O 5º Poder" (62), de Alberto Pieralisi, e "O Pagador de Promessas" (1964), de Anselmo Duarte, mostram a fragilidade política e social do Brasil, o país dos abismos socioeconômicos.
A crítica chega a anos mais recentes, quando filmes como "Tropa de Elite", de Jorge Padilha, abordam outro tipo de corrupção, a policial, hoje vista como um problema sério no país cujos habitantes desconfiam das "autoridades". O Capitão Nascimento (Wagner Moura) encarna neste filme um típico herói romântico frente à corrupção da instituição à qual pertence.
Penso que na eleição deste domingo, quem vota nulo encarna sem querer uma espécie de heroísmo, um heroísmo apedrejado porque pessoas assim são vistas como cidadãos "em cima do muro", quando na, verdade, é preciso muita coragem para levar pedradas dos dois lados. Criou-se no País um pensamento binário "se você não está com a gente está contra a gente" - de forma que muitos não compreendem caminhos alternativos na hora de fazer política.
Um número significativo de eleitores votou nulo, branco ou se ausentou no primeiro turno. Isso correspondeu a 29% dos eleitores e tende a aumentar no segundo turno. Essas pessoas não enxergam mais as urnas como a "caixinha mágica" capaz de promover mudanças no País. Isso porque os mesmos grupos econômicos financiam os dois partidos que concorrem às eleições. É muito confortável para uma empresa dar o mesmo valor em dinheiro para o partido A ou B, estas empresas nunca perdem a eleição. Não enxergar esta realidade é uma prova de ingenuidade, ainda que invoquem este ou aquele projeto de governo. Projetos que se esvanecem ao primeiro toque da caixa registradora que promove eventos milionários e constrói usinas hidrelétricas.
Penso que se algum cineasta está pensando em registrar este momento político, deve desengavetar imagens a partir de junho de 2013, quando multidões foram às ruas pedindo mudanças. Quase a mesma multidão vota hoje em candidatos criticados ontem. O país é tomado por um civismo que se transfere para os votos neste domingo. Algo que lembra uma celebração ao futebol, com duas camisas, duas cores e dois times diferentes. Mas ainda acho que um Brasil mais silencioso, que vota nulo, é um Brasil reflexivo. É este país que vai transferir as decisões das urnas para as ruas num futuro próximo, protagonizando um salto no pensamento político que vai além das bandeirolas, porque essas são facilmente enroladas, como as paixões. Como nos filmes de ficção, no entanto, sinto que este pensamento é demasiadamente anárquico para um país que voltou a votar há apenas uns 30 anos. Não se trata de um pensamento prematuro nem omisso, mas de um pensamento que impõe a reflexão para que o cenário político não seja mais binário nem bipolar. Este empenho é valioso e mais realista que qualquer filmografia porque cutuca partidos e políticos para que deixem de ser eternamente os falsos pagadores de promessas.
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