CÉLIA MUSILLI - Maio
Maio chega com o friozinho prometido, um céu de lã, de carneirinhos voláteis me espiando entre as flores de algumas árvores que explodem roxas e rosas, num fundo decorado como paisagem em que Deus pôs a mão.
O mês me lembra uma planta em forma de pingente, a flor-de-maio, que minha mãe cultivava em vasos e me parecia eternamente viva. Resistentes, estas flores não dão o trabalho das rosas, nem das violetas sensíveis ao frio. São aquosas como as barrigas grávidas, florescem uma ou duas vezes por ano, ficam carregadas de botões e parece que vão atravessar os séculos na exuberância, anunciando que alguma coisa vai nascer.
De maio, me lembro das cobertas sendo retiradas dos armários nas primeiras horas da noite quando estar em casa é um prazer diferente do verão. Maio pede chá e pipoca, uma mirada no céu noturno onde as Três Marias brilham como a constelação mais significativa e Vênus resplandece. Maio, na minha infância, era mês de novena a Nossa Senhora, ritos e procissões em que as mulheres carregavam a santinha, cantando com voz aguda hinos que me deixam triste até hoje.
Há muita nostalgia em maio, que anuncia o junho das fogueiras e prenuncia o inverno que nos deixa com saudades de todas as casas que habitamos. A casa é o abrigo, a toca que dá aconchego quando nossa intimidade deseja um lugar no mundo. Maio é o mês intimista em que faço anos, sem muita festa, mas com a lembrança dos bolos e suspiros de açúcar, diferentes daqueles que são pura sensibilidade e não têm forma, só emoção.
Maio me tira o fôlego nas manhãs azuis e nas noites estreladas. Uma atmosfera de Van Gogh, um exagero de cores, a natureza revelada como obra de arte. É muito bonito o mês de maio, com suas lembranças que saltam das caixas como presentes para mães e noivas.
Entre os meses, alguns têm esta magia, saindo do calendário para marcar o tempo com toda poesia a que a espécie tem direito. Assim vejo maio, setembro, dezembro e os julhos profundos, quando o ano se divide ao meio e a gente não sabe se segue em frente ou se volta. Na impossibilidade, terminamos o ciclo e, de repente, já é maio de novo quando o ar é limpo, as cidades se iluminam e o céu pinga estrelas como uma chuva cósmica que lava memórias.
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