CÉLIA MUSILLI - Loucura consagrada em arte
Revi as obras de Arthur Bispo do Rosário no último domingo, na 30ª Bienal de São Paulo, e considerei sua exposição uma das mais bonitas do evento. Numa mostra basicamente fotográfica, as obras do Bispo surgem iluminadas por sua criação artesanal que o inclui entre os grandes artistas contemporâneos.
Depois que retiraram suas obras do manicômio onde ele viveu durante anos, ninguém sabe como ele compunha o ambiente que abrigava sua criação como se fizesse daquele seu quarto-forte um outro mundo, onde só entravam as pessoas que respondessem à pergunta que ele utilizava como senha: "De que cor é o meu sembrante"?
Bispo do Rosário via a si mesmo iluminado e colorido. Se nem todos conseguiam enxergavam o seu semblante, sua aura de profeta ou mesmo de Jesus Cristo - que ele acreditava ser e de cuja autoridade se investia com o poder da palavra - decerto todos que o visitavam sabiam, pelo menos, que estavam diante de um ser excepcional, que restaurava em sua obra uma comunicação cósmica através do delírio.
Pessoalmente, vejo sua obra sob dois eixos: um que o liga à realidade, através de maquinarias, utensílios e objetos de uso cotidiano como as canecas, chinelos e talheres com os quais compôs suas assemblages, colagens feitas de vários materiais. E outro eixo que é uma concepção transcendental do artista que coloca a palavra sagrada em estandartes, mantos, faixas, dando origem ao Verbo bordado, como profecias feitas com linha e agulha.
Se não vemos a aura de Bispo do Rosário, enxergamos seus insights criativos e cheios de luz. Gostei especialmente dos seus objetos pendurados como móbiles, nem todos apreciam porque ele costumava enfileirá-los em prateleiras, mas esta espécie de subversão à sua obra cria a novidade do movimento, com objetos que atravessam o tempo de outra forma, numa concepção que me remete ao espacial ou aéreo, ao objeto enquanto ideia, produto da mente.
Entre as pessoas que estavam na exposição para dar depoimento para um documentário que Valdir Rocha está fazendo sobre o Bispo, encontrei Marta Dantas, professora do curso de Artes da UEL, que defendeu tese de doutorado sobre a obra em questão e escreveu um livro magnífico: "Arthur Bispo do Rosário A Poética do Delírio" (editora Unesp, 2009), uma análise das mais importantes e profundas.
Conversando com Marta chegamos à conclusão de que se falta alguma coisa a ser analisada na obra do Bispo é sua relação com a palavra, elemento essencial em seus trabalhos articulados em frases, signos verbais que reeditam as mensagens bíblicas sobre tecidos, criando, mesmo enquanto palavra, uma poética de imagens que se dirige ao Dia do Juízo Final.
Arthur Bispo do Rosário, além de suas obras, deixou frases excepcionais como uma que dá a dimensão de seu espírito livre: "O louco é como o beija-flor, está sempre a dois metros do chão."
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