CÉLIA MUSILLI - Lola para salvar a fantasia
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de maio de 2013
Volta e meia uma garota de programa surge surfando na mídia. Depois de Bruna Surfistinha, cuja história foi parar no cinema, aparece Lola Benvenutti, pseudônimo de Gabriela Natália da Silva, 21 anos, estudante de Letras da Universidade Federal de São Carlos (SP), que se transformou em notícia porque se assumiu como garota de programa num blog com muitos acessos. Na verdade nada demais, apenas mais do mesmo assunto que de vez em quando toma a mídia. Sendo a garota jovem, bonita e disposta a dar entrevistas transforma-se rapidamente num novo "fenômeno", ao evocar o Lado B da sociedade que se torna cada vez mais A. Explico, Lado B é aquilo que existe mas fica mais ou menos oculto, enquanto o A são as evidências que ninguém se importa de mostrar. No caso do sexo pago, da prostituição como profissão, cada vez mais mulheres se assumem como vendedoras de sonhos, assumindo o que fazem como mais um emprego. Elas não têm pudor em assumir que preferem ganhar bem pelos programas do que receber salário mínimo para passar o dia atrás de um balcão de loja.
Da minha parte, sou favorável ao fim de qualquer hipocrisia. Prostituição existe aos montes, é atividade tão antiga quanto o mundo, e se as prostitutas querem se profissionalizar cada vez mais, nada contra.
No caso de Lola Benvenutti, chama a atenção o fato da moça ser estudante de Letras, alguns até enxergam pendores literários no seu blog. Não vejo assim, fui ao blog e encontrei um texto comum, ela explica sua profissão da mesma forma que mulheres menos letradas: "Sou a Lola. Uma garota simpática, bela e que adora sexo! Intenso, forte, com desejo. É assim que tem que ser...Dona de uma personalidade autêntica, não ligo a mínima para quem fala mal de mim. Prefiro focar naqueles que me adoram e me fazem bem. Por isso, sugiro que os fofoqueiros de plantão não percam seu tempo tentando me importunar. Sou culta, estudo em uma universidade pública e falo inglês e espanhol fluentemente. Tenho 20 aninhos, seios bonitos, redondinhos e bumbum proporcional. Tudo na medida certa pro seu prazer". E seguem fotos para mostrar que os atributos são verdadeiros, juntamente com o seguinte aviso: "Atendo homens mulheres e casais, realizo todo o tipo de fantasias...o limite é o infinito. Atuo em São Carlos, Araraquara, Ribeirão Preto, Rio Claro e quaisquer outras cidades da região. Me ligue para consultar os valores".
Dito assim, até parece anúncio de venda de carro, mas se trata do anúncio da venda de uma mulher. Alguém ainda se choca com isso? Acredito que sexo pago seja um fetiche tanto masculino quanto feminino. Nas melhores famílias há mulheres que gostam de "brincar" de prostitutas com os maridos, simulando jogos que apimentem a relação. Coisa cultural, "antiga" de certa forma e sempre atual.
Se a moça de São Carlos consegue viver bem assim e mantém o seu affair com a grana, ponto! Sexo exige glamour ou transgressões que, às vezes, o viés "normal" ou cotidiano não dá. Metade do prazer é fantasia. A moça em questão oferece sexo com naturalidade, como quem marca horário no cabeleireiro. Atrai centenas de homens e até a imprensa porque assume sua condição de garota de programa e universitária, coisa também comum. Mas ela anuncia isso com charme extra ou teve a sorte de um repórter de plantão transformá-la em mais um fenômeno dos bas-fond. Por outro lado, numa sociedade absolutamente liberal já sem limites entre o público e o privado - moças como Lola tecem um contexto fantasioso ao alcance de todos. No fundo, vendem ilusões passíveis de se tornarem realidade. Pode ser que Lola nem seja tão culta nem tão feliz quanto parece. Mas o mundo precisa de simulacros e o sexo oferece a possibilidade de fazer mortais comuns delirarem com o efêmero. Talvez nem tudo seja tão belo ou tão perfeito na realidade. Mas dito assim, a partir de palavras sedutoras num blog, condensa o gosto que a sociedade contemporânea tem pelo virtual, aproximando vidas comuns do contexto de personagens de filme. Lola é isso até no nome, a encarnação do erotismo fantástico. Mais uma, entre tantas sereias, que surgem para salvar a fantasia. No caso, o veículo dos sonhos é seu próprio corpo que hoje vale tanto quanto um carro para desfrute de horas extraordinárias. Num mundo frustrante o que se vende a todo momento é a possibilidade de prazer. Lola faz parte deste pacote. A crítica, se os moralistas necessitarem dela, deve feita pela ótica do consumismo.



