CÉLIA MUSILLI - Literatura em trânsito
Mas ainda que na roda da vida tudo permanentemente flua e seja mutável, há emoções que reaparecem
Uma das minhas descobertas mais recentes foram os poemas da cubana Dulce Maria Loynaz (1903 - 1997). Viajando, leio seus textos à noite porque me levam às horas de pensamentos longos e sentimentos maiores ainda. A noite, vocês sabem, é quando tudo transborda.
Dulce fez poemas de amor, de emoções variadas, conseguindo tocar com as palavras aquilo que parece intangível, incluindo nossas contradições, porque somos únicos e somos tantos, ao mesmo tempo.
Dizem que ela é uma poeta que dificilmente aparece em antologias, porque seus poemas são muito extensos ou, talvez, assim pareçam porque vivemos tempos de emoções sintéticas e reflexões curtas. Mas ainda que na roda da vida tudo permanentemente flua e seja mutável, há emoções que reaparecem, nos surpreendendo nas esquinas, batendo à nossa porta. Como um coelho na cartola, elas desaparecem aqui para ressurgir ali, com outro rosto, outro clima, outra compreensão dos temas.
Assim são os poemas de Dulce Maria Loynaz, eternos porque se renovam numa recriação de emoções perenes e, paradoxalmente, sempre originais. Assim são os versos de ''Yo Te Fui Desnudando...'', em que muitas pessoas aparecem dentro de uma mesma pessoa, cujas ''cascas'' vão se soltando, tocadas pelo conhecimento que o amor, este velho Bruxo, nos proporciona.
E, como somos muitos, leio Dulce à noite. De dia, releio o romance de Reinaldo Moraes, ''Pornopopéia'', mundano e veloz como nossos tempos, porque sou muitas pessoas, cheia de contradições.
Fui te despindo...
Fui despindo você de você mesmo,
de seus ''vocês'' superpostos que a vida
te cingiu ...
Te arranquei a casca - inteira e dura -
que parecia fruta, que tinha
a forma da fruta.
E diante do vago assombro de seus olhos
surgiu você com olhos ainda velados
de sombras e assombros ...
Surgiu você de você mesmo, da mesma
sombra fecunda - intacto e desgarrado
em alma viva ...
(Dulce Maria Loynaz ,Versos, 1920-1938)





