CÉLIA MUSILLI - Literatura e apartheid
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de junho de 2015
Duas escritoras brasileiras que tiveram seu apogeu nos anos 60, despertam cada vez mais a atenção dos pesquisadores por apresentarem uma obra instigante. Neste âmbito, talvez Carolina de Jesus seja mais conhecida do que Maura Lopes Cançado. Carolina é autora de "Quarto de despejo diário de uma favelada", lançado em 1960 depois que o jornalista Audálio Dantas descobriu sua obra em 1958 ao fazer uma reportagem para a revista O Cruzeiro, na favela Canindé, em São Paulo. Ela tinha muitos cadernos com poesia, romance, anotações variadas, mas o jornalista interessou-se mesmo pelo seu diário, que contava as vivências de uma mãe solteira que sobrevivia catando papel de dia, enquanto escrevia à noite. A primeira edição do livro vendeu 10 mil exemplares só na primeira semana após seu lançamento, depois foi traduzido em vários países do mundo. Hoje, parte do material deixado por Carolina encontra-se microfilmado e faz parte dos acervos de vários centros de documentação do Brasil e do mundo, conforme relato da pesquisadora Elena Pajera Peres, pós-doutoranda do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, em vídeo realizado pela Fabesp. Ela é uma das pesquisadoras que se ocupou da obra de Carolina apontando não só seu valor literário, mas seu valor histórico, sociológico e antropológico, entre outras coisas.
Assim como Carolina de Jesus, Maura Lopes Cançado é mineira, mas viveu no Rio, onde escreveu o diário "Hospício é Deus" que tive oportunidade de analisar na dissertação de mestrado. Entre as duas autoras, há pontos em comum, talvez o mais significativo seja o fato de darem testemunhos importantes sobre ambientes marginalizados, como a favela e os hospícios, onde Maura passou praticamente a vida toda internada, era considerada esquizofrênica.
Personagens de grandes cidades brasileiras - Carolina em São Paulo e Maura no Rio ambas foram contemporâneas e sofreram das mesmas agruras por serem mulheres e marginalizadas: uma favelada, a outra louca, mas o que se levanta acima dessa condição é um olhar sobre realidades das quais saberíamos menos se não fosse este tipo de literatura testemunhal.
"Quarto de Despejo" compara a favela a um depósito de gente pobre. Não muito diferente dos hospícios que, na época de Maura, eram tomados como depósitos de desvalidos: de alcoólatras a prostitutas, chegando ao absurdo, em alguns casos, de comportarem todo tipo de gente negligenciada socialmente, sendo em menor número propriamente os loucos.
Retratos sociais da desigualdade - que ainda permanece como condição existencial de muitos brasileiros - os livros dessas duas autoras fornecem uma visão que nem todos alcançariam, não fosse o papel de registro da literatura confidencial que, por acaso, chegou à publicação, enquanto muitos outros livros da mesma natureza são completamente desconhecidos.
A pesquisadora Raffaella Fernandez, da Unicamp, também trabalha com material inédito de Carolina de Jesus, cerca de 50 cadernos, somando aproximadamente 5 mil páginas, entre as quais há sete romances. Obra monumental de quem "não tinha alma de favelada, mas nasceu para brilhar", segundo Audálio Dantas.
De Maura Lopes Cançado, é mais conhecido o diário "Hospício é Deus", já o livro de contos "O Sofredor do Ver" teve a primeira edição de 1968 esgotada há décadas, até ganhar nova publicação da Confraria dos Bibliófilos do Brasil em 2013, mas trata-se também de edição já esgotada. Produzida em formato artesanal, ilustrada e com exemplares numerados, foi essa edição que analisei na minha dissertação de mestrado concluída na Unicamp em 2014, e que hoje se encontra cotada a peso de ouro como raridade em poucos sebos do Brasil. De lá para cá, há rumores de que seus dois livros serão republicados ainda este ano, coisa a se conferir. Há tempos existe um interesse profundo por sua obra, mas nada de concreto em relação à reedição de seus livros escritos, como os de Carolina, como literatura em carne viva. Que os planos saiam do papel, ou melhor, encontrem a sua forma.
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