CÉLIA MUSILLI - Jogo de cintura
Cenas. Em mobilidade, em velocidade. Ah! As curvas, as paradas, as esquinas, o passageiro atrasado. Continuo a viagem nos ônibus urbanos de Campinas, transporte público malcuidado, uma série cinematográfica para ilustrar o cotidiano, ao qual, apesar de tudo, devemos emprestar alguma arte.
Velhinhos malabaristas, de 70, 80 anos, perderam a conta e entraram no coletivo. Com ou sem bancos especiais sempre sobram alguns em pé, contorcionistas, os braços adiante segurando a poltrona, um pé atrás, o balanço que exige deles a flexibilidade de um bailarino de streat dance, personagens de suas próprias trajetórias cruzando as avenidas. Às vezes alguns me lembram um goleiro, batendo na trave para não sofrer um gol. Um drible à direita, outro a esquerda, um susto quando quase perdem o jogo ou a ...vida. Não é fácil andar de ônibus quando se tem 80 anos. Mas vão resolutos, sabedores de seus direitos de entrar pela parte detrás, se for preciso, ganhando depois a dianteira caso um jovem educado decida lhe oferecer o banco. Conforto mediano, mas ainda melhor do que driblar o direito à vida. Vão animados com seus passes de idosos e de jogadores de uma partida difícil, às vezes decisiva.
Aí vejo o outro time, de jovens, equilibristas. Com um único dedo em apoio são capazes de se manter em pé. Reparo a destreza de sacolejar como quem está no seu próprio habitat, o território urbano feito para nativos espertos. Eles vão sorridentes, mochilas nas costas, a vida pela frente. São os donos da situação bizarra de andar de ônibus. Vinte minutos com eles daria um documentário de tirar o fôlego. Takes e zoom, o som do rap, a batida concentrada em dois ou três ritmos, jogo de quadril, pernas eretas e fortes, braços que tratam de abrir caminho. Uma raça espontânea que não perde o humor mesmo quando perde o ponto e desce na próxima parada porque se distraiu com o smartphone. A tecnologia é sua eterna companheira, desligam-se de tudo, menos dela, em caso de distração pedem ao motorista para ser maneiro e criar uma parada ali mesmo, na próxima rua.
Mobilidade, velocidade, pontes e semáforos, túneis onde se atravessa o dia como quem atravessa o tempo.
Outro dia acho que vi um anjo. Numa destas paradas urbanas onde o que menos se espera é um habitante do paraíso. Mas ele estava lá, loiro, com expressão etérea, de camiseta branca como os aventais do paraíso. No cabelo não havia brilho, mas luminescência, palavra mais adequada ao vocabulário angelical. Ia para faculdade, equilibrou-se como um ator de cinema, um artista do circo Zanni em noite de espetáculo. Quando o ônibus parou, não desceu, flutuou. Essa foi a impressão quando aquele José, Pedro ou João deixou o coletivo como se descesse nas nuvens. Ia ao encontro de anjos, arcanjos, seres de outro planeta. Com o veículo ainda em movimento, desceu um, dois degraus, saiu pela porta sem que o ônibus parasse absolutamente. Então, não tive dúvidas, aquele moço batia asas e voou. Continuei no veículo, passageira do meu eterno jogo de cintura, espectadora de cenas impensáveis.
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